Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Burocracia na Morte

“O conhecimento da Hora só a Deus pertence, só Deus a fará surgir quando tiver de surgir. Ela será penosa nos céus e na terra e surpreender-vos-ás de um momento para o outro.” Maomé

“O conhecimento da Hora só a Deus pertence, só Deus a fará surgir quando tiver de surgir. Ela será penosa nos céus e na terra e surpreender-vos-ás de um momento para o outro.” Maomé

Burocracia na Morte

08
Jun19

77 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - A Fusão (5ª Parte)

Narciso Baeta

Homem.png

 

77

Helias II, o último monarca da cidade sagrada Tricúspica, olha com angústia para a Lua que cresce lentamente no céu escuro.

- É estranho, poucas foram as vezes que contemplei este astro, e agora aqui está ele aumentando de dia para dia.

- Neste caso, de noite para noite! - Diz Paulo Prestes, sentado na cama. - O senhor já reparou que não tem sombra?

- Eu já não sei o que tenho e o que não tenho, estou aqui perdido, abandonado, vendo a grande missão da minha vida a desaparecer. É frustrante!

- Missão, qual missão?

- Senhor Paulo Prestes, a minha missão chama-se “Novo Olhar”, tal como a sua, e penso que chegou a altura de termos uma conversa séria.

- “Novo Olhar”? Também pertence à missão?

- A missão ainda não acabou engenheiro, falta-nos atingir o Umbigo. A tripulação da “Carraça” sofreu um contratempo, como o senhor deve saber, e é preciso reuni-los a todos. Este tempo não lhe diz nada, nós caímos na armadilha dos clones. O coronel Narciso e a engenheira Rita também estão algures neste planeta e é preciso encontrá-los.

- Encontrá-los? Mas onde?

- Fale com o neurologista Charles Thunder e invente uma história. Eles estão sempre à procura dum bom motivo para publicarem um artigo, porque têm de justificar o dinheiro que ganham. Os pacientes como vocês devem já ser poucos.

- Como é que pensa regressar à Eva?

- Primeiro temos de saber onde é que os outros estão, depois vocês devem juntar-se e em seguida serão recolhidos.

- Recolhidos, por quem?

- Desconfio que já anda alguém à vossa procura.

- Mas quem é essa pessoa?

- O nome não lhe diz nada, não o conhece!

- Como é que tem tanta certeza que eu não sei?

- Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua, está contente?

- É melhor ir-me deitar, que raio de nomes, um é o Gato-do-Sorriso-de-Ouro, este é o Cabreiro-não-sei-quantos, – diz Paulo, entrando na cama e tapando-se com os lençóis.

- Senhor engenheiro, não se esqueça do que eu lhe disse, amanhã fala com o director.

Helias II aproxima-se novamente da janela e torna a olhar para a noite.

- Entra palhaço, já estou farto desta espera, – resmunga o gato, cravando as unhas no rabo gordo do clone do monarca.

- Maldito gato, – grita baixinho. - Queres que me atire da janela ? É isso, a porta da gruta coincide com esta janela. Mas a janela está protegida com uma grade?! Só atirando com o cadeirão!

Helias II dirige-se para a cama e abana o amigo.

- Então, o que é que quer agora de mim? Já nem posso dormir.

- Preciso da sua ajuda, tem de atirar o cadeirão pela janela.

- Atirar o cadeirão pela janela? Ficou maluco de vez!

- A passagem para a gruta coincide com esta janela e eu tenho de saltar.

- Então atire o senhor a cadeira!

- Se pudesse atirava mas, aqui, estou no estado gasoso.

- Está bem, está bem, só para me ver livre de você, eu faço tudo. Calculo que se não colaborasse ficaria a noite toda a massacrar-me.

O engenheiro Paulo Prestes levanta-se com energia, acende a luz e, com um exuberante ataque de nervos, pega na mobília e arremessa-a contra a janela, despedaçando-a. O destino é uma máquina cruel, um mal necessário para o bom funcionamento do Universo: o cadeirão despenha-se do terceiro andar e cai em cima do chefe da cozinha, Júlio Meia-Lua, um emigrante português, que tem morte imediata. Três enfermeiros, dois homens e uma mulher, entram de rompante no quarto número dez e imobilizam o paciente, pondo-lhe um colete-de-forças. O engenheiro de sistemas da nave Piolho-Um ainda tem tempo de ver o monarca cardíaco a correr para a janela e a lançar-se no vazio.

- Bem-vindo à Eva, – saúda o gato sorridente, ajudando o seu amigo a levantar-se. - Já só faltam os outros três!

- E John, onde é que está?

- Vai a caminho do Umbigo.

- Mas ele não pode entrar sozinho!

- Tenha calma, ele só chega ao Umbigo quando nós quisermos.

No labirinto mágico do asilo de Salpetrière é hora de ponta, os doentes entram e saem num ritual frenético, que lhes parece lavar as almas atormentadas. O jardineiro e os seus amigos procuram despreocupadamente um espaço, e encontram-no junto à fonte.

- Não era melhor termos ido para um sítio mais calmo? - Pergunta Richard Cinfuentes.

- Este é o sítio mais calmo, não é por acaso que os utentes lhe chamam o Paraiso! -Responde o Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua ( ai de mim, autor, que não escrevesse o nome todo; ainda aparecia no meu quarto e lançava-me um feitiço ! ).

- O Paraíso, este cubículo feito de ervas, é o Paraíso?!

- Doutor Cinfuentes, tamanho nunca foi qualidade, é por isso que o Universo está a encurtar-se. Não temos tempo para filosofias, mas sim para continuarmos com a missão “Novo Olhar”. Os senhores doutores também vão tomar parte nesta última fase.

Vamos ao Umbigo da Eva!

- Senhor jardineiro (boa maneira de se safar!), e como é que vamos para o Umbigo, apanhamos a camioneta ali na esquina? - Pergunta o neurologista francês, num tom jocoso.

- Como é que adivinhou, doutor Lipiérre? Sim, vamos num autocarro que estará ali na esquina hoje à meia-noite, quando a Lua estiver bem redonda. Não se atrasem!

- Mas falta um elemento, o engenheiro Paulo Prestes, – alerta o coronel Narciso.

- Não se preocupem, nós vamos buscá-lo logo à noite.

- Buscá-lo? Mas onde é que ele está? - Pergunta a Rita.

- No hospital de Highlands?!

- Highlands? É verdade, eles têm lá doentes pós-encefalíticos, como é que eu não me lembrei? Vou telefonar para lá.