172 - O Bisneto do Padre Joaquim - Dia 4 - 21 de novembro de 1949 (segunda-feira) - Despedidas

- Há uma coisa de que tenho a certeza, voltaremos a encontrar-nos. Boa-noite pai!
Miguel viu, repentinamente, num local muito escuro, uma estrada que o levava em direção a vários ciprestes, sentinelas de um outro mundo, e quando se aproximou de um portão, que estava aberto, leu “Cemitério do Prado do Repouso”. Ouviu o som de um carro a aproximar-se, os faróis a rasgarem a noite, e os archotes de quatro homens que acompanhavam o veículo. Quando passaram por ele, viu o avô à janela e disse-lhe “adeus”. O dr. Mário de Miranda olhou fixamente para o desconhecido e tocou no motorista.
- Mário, porque é que mandaste parar? – Perguntou Maria da Glória, olhando chorosa para o marido.
- Tenho de ir falar com aquele senhor, continuem que eu já vou lá ter.
A acompanhar o carro estava o pai e os tios.
- Obrigado por vires, Miguel, - disse o avô abraçando o neto. – Chegou o fim do nosso sonho, - e deu-lhe um beijo perante o olhar incrédulo dos acompanhantes.
Dirigiu-se para os filhos, pôs o braço por cima do Jorginho e desapareceu na noite escura e gélida daquele mês de janeiro no Porto.
Miguel acordou repentinamente ao som de um despertador estridente do chinês, uma opção do telemóvel. Leu 8 de janeiro de 2024. Levantou-se calmamente para que a pressão sanguínea não baixasse, deu um gole na garrafa de água que estava no chão junto à cama, e sentiu-se confuso com o sonho que tivera. Levantou-se, agarrou no livro que estivera a ler na noite anterior, e nos óculos de leitura, ambos junto à garrafa e dirigiu-se à sala para os deixar em cima da secretária. No teclado do portátil estavam as folhas manuscritas do avô com os poemas que escrevera com raiva após a morte do seu filho António. Releu-as!
“Filho Renascido
Cobriu-se-me de luz a escura noite
Por onde a frágil vida me levava;
Por ele venturoso caminhava
Dos meus entre o amor e o espanto
Ao meu filho querido eu já o via
No meio do regresso que sonhava! …
Os átomos duram eternamente
Longa noite fria em curta manhã de sol
Como relíquia nesta solidão
À espera na alma o novo beijo
Os seus átomos formaram-no noutro lugar
O olá supremo o novo lampejo
E chamo: - António! Filho! … Esperançoso
Ansioso o vou buscar ao meu neto”
Mário Miranda acordou junto ao seu filho António neste dia frio de 8 de janeiro de 1943 e viu várias caixas de remédios na mesa de cabeceira:
- Clindamicina 300 mg e Brufen 400 mg???
Sempre que uma pessoa morre deixa um espaço com uma porta de saída, que é também uma porta de entrada, mas esta só alguns sabem utilizar. Perderam toda a memória de tudo o que aconteceu durante a permanência no ciclo, a auto consistência do Universo devolvia sempre o tempo às suas condições iniciais. O “Paradoxo do Avô” não passava de um mito! A pessoa que regressa já não é a mesma. Por isso nunca se regressa. O Universo é um todo atemporal onde o passado, o presente e o futuro coexistem.
