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Burocracia na Morte

“O conhecimento da Hora só a Deus pertence, só Deus a fará surgir quando tiver de surgir. Ela será penosa nos céus e na terra e surpreender-vos-ás de um momento para o outro.” Maomé

“O conhecimento da Hora só a Deus pertence, só Deus a fará surgir quando tiver de surgir. Ela será penosa nos céus e na terra e surpreender-vos-ás de um momento para o outro.” Maomé

Burocracia na Morte

11
Jan26

170 - O Bisneto do Padre Joaquim - Dia 4 - 21 de novembro de 1949 (segunda-feira) - Na Cama do Massena

Narciso Baeta

Massena.jpg

16

 

Miguel tocou na porta do quarto do tio Fernando e esperou.

- Tio, posso entrar? – Perguntou, após algum tempo de espera e alguma insistência.

Rodou a maçaneta e ela abriu-se.

- Posso? – Insistiu.

Nada, o quarto estava vazio. Uma folha manuscrita sobre a cama chamou-lhe a atenção. Era uma carta dirigida ao sobrinho Miguel, para ser lida no futuro, quando alguém a encontrasse algures na biblioteca. O afilhado sentou-se na cama e quando se preparava para a ler, começou a ouvir uma sinfonia caótica de gritos raivosos em francês e em português, misturados com tiros, que desencadearam um turbilhão de emoções dentro dele, viu-se no cimo de uma colina verdejante, sentiu o vento de uma turbe de civis que se lançava com uma ferocidade agressiva, e sagrada, sobre um grupo de inimigos com fardas esfarrapadas, que tinham acabado de sair de uma curva, e ouviu o barulho de dentes de metal a penetrar na carne de um deles.

- Menos um, ó Maneta! – Gritou alguém em português.

- Au revoir maman, je vais mourir! – Retorquiu o soldado agarrando-se ao cabo da forquilha.

Mas um puxão rápido do português separou-os, e ele partiu rapidamente de encontro a outro. Os portugueses, alimentados por um ódio inabalável aos invasores, avançavam com uma coragem inegável.

- A cama do Massena! – Exclamou Miguel, rindo-se.

Lembrou-se da estória da cama onde o general francês dormira na noite em que acampara com o seu exército na margem do rio Ovelha, numa das extremas da Quinta de Palmazões, em Padronelo. Mais tarde o Miguel descobriu, numa das idas à casa das batatas com o pai, três bacamartes enferrujados escondidos atrás de uma porta, que o pai recuperou e pendurou na entrada da casa de Paço de Arcos.

- Agostinho, ajuda-me, - pediu alguém.

- Estou a caminho Claudemiro, - respondeu um vulto, saindo de trás de uma árvore.

-  Agostinho Clemente de Miranda?

- Quem me chama? – Perguntou a figura imponente, com uns olhos ardentes de paixão pela liberdade, como se a própria vida dependesse disso, parando e olhando para todos os lados.

Mas foi por poucos segundos, o tetravô paterno do Miguel correu de novo em direção ao amigo, e o viajante do tempo olhou para o telemóvel e viu a data, 10 de fevereiro de 1809. Começou a filmar. Agostinho Clemente de Miranda tinha umas feições marcadas pela determinação, a sua atitude misturava coragem e a cautela de quem já conhecia os meandros da zona que agora se transformava em campo de batalha. Na curva da estrada surgiu um francês que se destacava pelo uniforme impecável e a confiança de quem foi treinado para a guerra, dando passos calculados com a precisão de um soldado disciplinado, com uma expressão que misturava determinação e dever, refletindo a lealdade ao seu exército e à causa que o trouxera para aquelas terras desconhecidas. Miguel riu-se sem parar, o francês era a alma gémea do senhor Manuel, o jardineiro da casa dos pais.

- Cuidado Agostinho, - gritou.

A lâmina da espada do inimigo rasou a cabeça do familiar, que teve tempo para se virar com uma destreza de um felino, enterrando as quatro pontas afiadas no tronco do atacante.

- Morre francês, Quintela nunca será vossa, nunca tocarão na minha Eva!

Miguel ainda viu o pai e o avô materno Mene deitados na cama do tio Fernando, a pedido deste, que registou para memória futura os nomes dos generais que se tinham deitado ali.

- Estás à minha procura? – Interrompeu o tio irrompendo pelo quarto.

- Nem imagina onde estive, - exclamou o Miguel levantando-se e olhando para o telemóvel, que indicava o dia 21 de novembro de 1949, segunda-feira.

- Aposto que viajaste!

- Estive em Quintela a ver o Agostinho Clemente de Miranda a enfrentar as tropas francesas.

- Diziam que era um lutador duro!

- Gritou pelo nome Eva enquanto matava o francês.

- Eva Maria Luiza da Fonseca, a prima com quem se casou no dia 30 de agosto de 1807.

- Quase ia morrendo, se eu não o tivesse avisado, nós provavelmente não existiríamos. Olhe!

E o hóspede mostrou ao engenheiro Fernando Miranda o filme do telemóvel.

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