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Burocracia na Morte

“O conhecimento da Hora só a Deus pertence, só Deus a fará surgir quando tiver de surgir. Ela será penosa nos céus e na terra e surpreender-vos-ás de um momento para o outro.” Maomé

“O conhecimento da Hora só a Deus pertence, só Deus a fará surgir quando tiver de surgir. Ela será penosa nos céus e na terra e surpreender-vos-ás de um momento para o outro.” Maomé

Burocracia na Morte

18
Ago19

82 - Cordeiro Verde - O Papão - Dies Irae

Narciso Baeta

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82

 “Dies Irae – Dia de cólera, nesse dia, como David e a Sibila profetizaram, o mundo se transformará em cinzas. Então, que gritos, que tremores! Deus descerá do céu para julgar severamente”

                                                              Tommaso de Celano

 

“O conhecimento da Hora só a Deus pertence, só Deus a fará surgir quando tiver de surgir. Ela será penosa nos céus e na terra e surpreender-vos-á de um momento para o outro.”

Maomé

 

A passagem pelo Umbigo é rápida e silenciosa. Apenas um túnel que guarda uma noite muito escura.

- A escuridão foi feita para purificar as almas! - Explica o Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua.

Logo depois luz, mas não uma luz qualquer, esta é brilhante, reconfortante, amiga, muito amiga.

- Só nos faltava isto, um Dies Irae, – diz o motorista-profeta. – E eu que queria abastecer neste planeta.

- Um Dies quê?! - Pergunta Paulo, vendo o horizonte bloqueado por uma muralha de unicórnios e respectivas montadas.

- Um Dies Irae, um dia de Juízo Final.

- O Juízo Final?

- Dona Rita, não há o “Juízo Final”, mas dias de Juízo Final. De tempos a tempos é necessário limpar os planetas, renovar as almas, e então Laputa envia os serviços de limpeza. Foi o que aconteceu neste planeta, está temporariamente fechado.

- Serviços de limpeza a planetas?! Assim sim, adoro este Universo, – grita John, com os olhos muito abertos, para não perder nem um bocadinho da cena. - Unicórnios, milhões de unicórnios brancos, é fantástico, vale a pena ter vivido para ver este espectáculo.

De repente, aparece um dragão enorme e pára junto à carrinha. Indescritível, um monstro multicolor, coberto com tufos de pinheiros mansos, tendo cada árvore na sua copa uma bandeira azul celeste. O seu olhar é terno, é meigo, é doce, enfim, apetece-nos cobri-lo de beijinhos, dizer-lhe que é a criatura mais meiga do Universo, logicamente a seguir à nossa mãe, se formos solteiros, ou à nossa mulher, se formos casados.

- Um Papão aqui? Laputa enviou um Papão? - Interroga-se o motorista-cicerone.

- Um Papão, este dragão com cara de menino, chama-se Papão?

- Sim Rita, este jovem que está aqui ao nosso lado, é um Papão, e isto quer dizer que algo de muito importante está a acontecer na Casa de Deus.

- Mas, o que é que pensa que está a acontecer?

- Uma mudança de Tempo ou Idade, como lhe quiserem chamar.

- Tempo ou Idade?

- Vamos aproveitar o Dies Irae, ou Juízo Final, para eu lhes contar um pouco da história do Universo.

- E o Papão?! Falou dele, mas não nos explicou o que é que faz?

- Coronel, o Papão papa ideias, o Cosmos, ou Universo, ou como lhe quiserem chamar, é constituído por ideias do Bem e do Mal, em permanente disputa. Quando há uma concentração excessiva de uma delas, este dragão vem e come-as, repondo o equilíbrio. Para as conseguir papar, elas têm de estar todas juntas, e é isso o que os funcionários do Dies Irae, o Departamento Ambiental de Laputa, estão a fazer neste planeta.

- Vamos à história do Universo! - Diz um dos presentes em tom de desafio, completando a meia-lua que se formou em frente do orador.

- Há um Universo, escrito com letra maiúscula, e universos, escritos com letra minúscula. Todos são peças fundamentais, como num relógio, capazes de parar o mecanismo. Senhor John, sabe porque é que não passou naquela gruta com os seus amigos? Porque não tem passado! Mas tem presente e tem futuro, e é nesses dois tempos que vive. No primeiro é um planeta e no segundo um habitante desse mesmo planeta. Dois momentos diferentes, num mesmo tempo. E para complicar ainda mais as coisas, ocupa o mesmo espaço com outro corpo celeste, ou seja, dois planetas distintos num único espaço, mas em dimensões diferentes. O cartógrafo cardíaco John Kovac’Olhões, habitante do planeta Corpo, ou Adão, figura bíblica, é também um planeta que existe junto ao Corpo, mas noutra dimensão. Perceberam?

- Nítido, cristalino como o vinho tinto, – responde John, provocando uma gargalhada geral.

- Não se ria muito Rita, que o seu caso também é complicado, – avisa o orador, colando os seus olhos na alma da engenheira.

- Com esse seu olhar até fico assustada!

- Rita Bouvalier, menina no passado, engenheira cardíaca no presente, guardiã dum Genátomo no futuro, senhora de três tempos. É raro, muito raro, de certeza que vai ser um anjo.

- Como o gato? - Pergunta, com um ar vivo e trocista.

- Como o gato, como uma aranha, como um pássaro, como um pinheiro, como qualquer ser vivo. O Universo é limitado, os destinos estão escritos, qualquer ser vivo serve para que eles sejam cumpridos. Rita, só o seu futuro restará, o seu passado e o seu presente não pertencem mais ao Eterno Retorno, foram vítimas da sua selectividade. E agora é a sua vez coronel Narciso Figueiredo Baeta.

- Já estava a achar estranho, também sou assim tão complicado?

- A sua atracção é pelo passado, o seu presente é ténue e o seu futuro não foi escrito.

- E eu, não me disse para onde vou?

- John, não tem passado, não tem futuro, tem dois presentes e é somente com um deles que ficará.

Uma luz brilhante interrompe o debate, é o fim do Dies Irae, o movimento torna-se obrigatório e o Papão mistura-se com a poeira do Cosmos. A carripana já se move, deixando atrás de si um rasto de fumo branco.

- Lá somos mais um cometa, daqueles que os entendidos dizem passar de mil em mil anos, – parodia o motorista, aproximando-se da zona gravitacional.

- Qual é o nome deste planeta? - Pergunta Paulo Prestes.

- Leve, o centro do Universo!

- Leve? Que nome estranho.

- Leve de ideias e de virtudes, é o local onde o senhor engenheiro vai ficar.

- O quê, vou ficar aqui neste planeta primitivo? - Indigna-se Paulo, olhando pela janela e vendo casas feitas de pedras e barro.

- A sua missão é levar-lhes as palavras e as leis do Código de Conduta de Laputa.

- Mas eu nem sei qual é esse Código!

- Tome, aqui tem os dez artigos do Código de Conduta de Laputa, – e entrega-lhe uma folha.

- Só isto?! E depois, regresso?

- Sim, é só isso, depois vimo-lo buscar, – responde o motorista-profeta, rindo-se e dizendo baixinho. - Mal tu sabes o trabalhão que vais ter!

Poisam num deserto, um dos passageiros sai e partem de imediato. É estranho ver ali, no meio daquele mar de areia vermelha, o engenheiro de sistemas Paulo Prestes. Lançam-lhe um último adeus, e é isso mesmo, um último adeus.

Estão de novo mergulhados nos oceanos escuros do Cosmos, conduzidos por um senhor que conhece os seus limites. O silêncio é total, só o barulho dos cinquenta cavalos se faz ouvir, mas não é o suficiente para quebrar a contemplação dos presentes. Os últimos dias, se de dias se trataram, foram terríveis e maravilhosos para estes simples mortais, habituados às horas certas e aos destinos calculados.

Uma bola de fogo aparece de repente no lado direito e cruza-se com a “nave”.

- Chegou o seu tempo coronel Narciso, o passado espera-o, a porta do círculo está aberta, – informa o Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua, abrindo a porta da frente. – A carruagem espera-o.

03
Ago19

81 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - A Fusão (9ª Parte)

Narciso Baeta

 

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81

 

- Meu Deus, afinal isto é tudo verdade! - Exclama Rita, indo para junto do motorista.

- Então e agora, já acredita? Deus tem um plano para cada ser vivo.

- Não tenho outra hipótese, há evidências a mais.

- Rita, isto não é um sonho, não há sonhos tão grandes a não ser o Real. Tudo tem o seu lugar, no passado e no presente. O futuro é influenciado pelo passado, mas o passado também é influenciado pelo futuro. Um destino está ligado ao outro. Tudo permanece.

- O real?

- O Sonho Real, só se sai das Casa de Deus através dum Sonho Real. Meus senhores, vamos acorporar.

Na superfície do planeta duas luzes cintilantes dão-lhes as boas-vindas.

- Comité de recepção à vista!

- Um gato sorridente e um monarca sem reino, até onde é que irá toda esta loucura? - Pergunta o coronel, abrindo a porta de trás e saindo.

- Bem-vindos à utopia, é o regresso dos magníficos, – grita Helias II, abraçando efusivamente o militar. - Já estava farto deste felino falador.

- És sempre o mesmo, falas, falas, mas não dizes nada.

O motorista sai logo a seguir e o Gato-do Sorriso-de-Ouro prostra-se a seus pés.

- Senhor, recebe este teu humilde servo que nasceu para servir Laputa.

- Não abuses nas vénias ó siamês. Agradeço-te a tua fidelidade e nomeio-te Anjo do Universo. Vai e junta-te aos outros!

Duas majestosas asas brotam do dorso do animal e este eleva-se, desaparecendo na abóbada celeste, ao mesmo tempo que o senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-  Mensageiro-da-Lua abre os braços e proclama:

- Que o Tempo volte a ter data, para que o Universo se mova!

Uma chuva de meteoritos rasga a noite e uma coluna de fogo ergue-se em direção ao Céu.

- A espada de Deus assinala sempre o caminho para a Sua morada. Nada é em vão, nenhuma respiração, nenhum passo, nenhuma palavra, nenhuma dor, tudo é um milagre eterno do Senhor.

Tornam a entrar no veículo e avançam para o seu destino. Pelo caminho encontram John sozinho na Carraça e recolhem-no. Param junto do Umbigo e contemplam-no por uns instantes. O motor ronca, as rotações aumentam e um chiar infernal de quatro pneus a riscar o solo pedregoso, faz a máquina precipitar-se velozmente para a cratera.

18
Jul19

80 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - A Fusão (8ª Parte)

Narciso Baeta

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80

O engenheiro Paulo Prestes despede-se do pessoal e sai calmamente pela porta da frente, apanhando um autocarro que, por coincidência ou talvez não, está parado no portão do hospital.

- Bem-vindo a bordo, Paulo - cumprimenta o coronel.

- Narciso?! Eu sabia que os haveria de reencontrar, algo me dizia que andavam perto.

- “Algo te dizia “, eu sei, eu sei - resmunga baixinho o motorista.

A velocidade do autocarro começa a aumentar vertiginosamente, as árvores são testemunha disso, pois passam de simples figuras que se cruzam com as janelas de segundo em segundo, a um traço contínuo verde. Até a cor do ar muda, de uma luminosidade e transparência raras, para um branco opaco, parecido com fumo. De um momento para o outro começa a ter-se uma sensação de inclinação, dir-se-à que vão a subir.

- Ó senhor motorista Cabreiro, levantámos vôo? - Pergunta Rita Bouvalier, espreitando pela janela à procura de alguma referência que confirme a sua dúvida.

- Minha querida senhora, antes de responder à sua questão gostaria, mais uma vez e as que forem precisas, de lhe pedir que quando se dirigisse a mim, o fizesse em termos correctos. “Cabreiro” não é nada, não existe ninguém com esse nome, essa palavra dita isoladamente perde-se no ar e...

- Deixe-se de filosofias senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua e responda à minha pergunta, – interrompe Rita, já muito exaltada. - Nós é que temos motivos para estarmos fartos desta palhaçada . Envolveram-nos nisto tudo sem pedirem licença.

- Rita, todos nós já estamos cansados de sermos os peões dum confronto que se joga muito lá em cima, mas penso que agora que nos encontramos perto do fim, nada justifica perdermos a calma, – diz o coronel, agarrando-lhe carinhosamente nas mãos bem tratadas e beijando-as.

- Narciso, tudo isto mói, foi penetrando lentamente dentro de nós, bem fundo do íntimo, estava planeado até aos mais ínfimos pormenores, a nossa vida foi sempre um jogo nas mãos deste senhor, ele manipula-nos, somos as peças de um jogo de xadrez, que vão sendo retiradas à medida que as jogadas avançam. Porquê todos estes mistérios, será que não temos o direito de saber para onde vamos?

- Rita, nós dirigimo-nos para o Corpo-Dois! - Exclama o Paulo.

- Para o Corpo-Dois?!

- Sim, para o Corpo-Dois, temos de trocar com os clones, a missão “Novo Olhar” ainda não terminou. Sabes quem é que esteve comigo no hospital? Helias II, o monarca da Cidade Tricúspica.

- Helias II, no teu quarto?!

- Ele mesmo, entrou por engano na gruta onde estava o clone dele, ia atrás do John.

- John, esqueci-me dele, prometi-lhe que o contactava, mas esqueci-me.

- Tu consegues contactar com o John? - Pergunta o coronel.

- Esqueceste que sou eu que escrevo o diário de bordo? O meu clone regista tudo o que eu escrever!

- Registava, senhora engenheira - informa o motorista - Esse seu dom foi-lhe retirado.

- Retirado, por quem?

- Por mim, eu detenho todos os poderes do Universo, sou o mensageiro de Deus, fui encarregado de prosseguir com a missão “Novo Olhar” até ao fim. Vocês desenterraram poderes que vos estavam vedados, nem imaginam as consequências se os tivessem manipulado erradamente. Engenheiras Rita Bouvalier, no Cosmos existem átomos errantes, com afinidades por determinados genes, que são raríssimos. As probabilidades de se encontrarem, são praticamente nulas, mas no seu caso deu-se o impossível. Aliás, foi com o seu pai que tudo aconteceu. Um desses átomos fundiu-se com um dos genes dele, formando um Genátomo, um dos elementos que deram origem ao Universo. Após Deus realizar a Sua obra, Ele descansou e os anjos separaram os Cinco Genátomos da Criação e guardaram-nos no Umbigo da Eva. Um dos átomos e um dos genes escaparam-se e desapareceram. Milhões de anos depois encontraram-se no planeta que deu forma ao seu pai. Nada aconteceu, até a senhora nascer! A Rita carrega uma informação que está para além da sua compreensão. Tem dentro de si a lei da existência de Deus, o direito do “Tempo do Espírito Santo”, que até agora tem sido negado, a última prova de que Laputa necessita para entregar os desígnios do Universo. Vejam meus senhores, vejam à vossa frente, acreditem que o tempo é linear, que ele avança eterna e uniformemente até ao infinito, e a diferença entre passado, presente e futuro não é mais nada do que uma ilusão. Ontem, hoje e amanhã não se seguem uns aos outros, Estão ligados num círculo eterno. Tudo está ligado! 

Ocupando o horizonte, mais bela do que nunca, aparece Eva, irradiando uma luz maravilhosa.

29
Jun19

79 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - A Fusão (7ª parte)

Narciso Baeta

 

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79

Os excursionistas entram e sentam-se confortavelmente. A máquina arranca, fazendo um peão poeirento e atravessa novamente o portão, que permanece fechado.

- Senhor motorista, Highlands fica na Escócia, do outro lado do Canal da Mancha. Como é que vamos passar?

- Vamos pelo túnel!

- Pelo túnel?! Mas não há nenhum túnel!

- Daqui a alguns anos haverá um túnel. Doutor Cinfuentes, se gostasse de filosofia, saberia que alguém já tinha descoberto que a essência precede a existência, e é esse o meio de viajar pelo Tempo.

Mar, túnel, Highlands, espaço do tamanho dum átomo, percorrido num tempo que não pode ser medido.

O engenheiro Paulo Prestes olha para a enorme janela panorâmica do quarto andar e vê que o Céu está mais estrelado do que nunca. O colete-de-forças não o deixa acompanhar o ritmo do pensamento com gestos abstractos. A sua memória encontra-se muito longe, está na quinta da família, que se situava na maravilhosa província do Antro, uma das zonas mais ricas da República do Estômago. Todos os domingos de manhã era acordado cedo pelo avô e ambos percorriam os trilhos dos cabreiros, os criadores da célebre Cabra- -Antral, um animal possante e saboroso. Iam à cabana do senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua. Enquanto o avô e o amigo ficavam a conversar, ele ia ver os brinquedos mágicos que habitavam a casa. Lembra-se que adorava brincar com os “três tempos”.

- Estes três bonecos de madeira não gostam de mudar de posição, – explicou-lhe um dia o senhor Cabra, como lhe costumava chamar. - Tenta mudá-los.

O rapaz agarrou nos das pontas e trocou-os.

- Agora temos de esperar um pouco!

Poucos minutos depois começou a vê-los estremecer e de repente voltaram às suas posições iniciais.

- Mas isto é magia? - Perguntou-lhe a criança, meio sorridente, meio assustada.

- Não Paulinho, isto não é magia, é verdade. Cada um destes bonecos é o dono de um Tempo. O encarnado e o azul já gastaram os deles e agora querem ficar com o do amarelo.

- E o amarelo vai deixar?

- O que é que tu fazias se fosses o amarelo, Paulinho?

- Não dava o meu Tempo, os outros já usaram os deles!

- Mas o azul não quer dar. O que é que fazias?

- Se for preciso luto, vou defender o que é meu.

- É isso mesmo o que está a acontecer Paulinho, o amarelo resolveu ir à luta.

À hora do almoço regressaram a casa e ainda se recorda de ter passado o resto do dia a fazer perguntas ao avô sobre os “três tempos”. Seria verdade? Agora algo lhe diz que sim, estas recordações não lhe vieram à memória por acaso.

- Senhor Paulo Prestes, agora dedica-se a atirar cadeirões pela janela? - Pergunta o médico de serviço, interrompendo-lhe a viagem ao passado.

- Tive de fazer aquilo, senão o meu amigo não conseguia sair.

- O seu amigo?

- O monarca Helias II.

- Ah, um rei! Tem um amigo que é rei, mas que fino. E ele conseguiu sair?

- Sim, atirou-se.

- Sabe que morreu um homem, o nosso cozinheiro-chefe, que ia a passar naquela altura por baixo da janela?

- Foi uma ilusão, doutor. Ninguém morreu!

- Ilusão?! Senhor Paulo Prestes, a polícia está aqui à espera que eu lhes diga se é ou não o responsável pela morte daquele infeliz. Basta-me dizer-lhes que você estava na posse das suas faculdades mentais, para o levarem preso.

- Doutor, ninguém morreu e eu já não vou ficar aqui por muito mais tempo.

- Eu confirmei o óbito do pobre cozinheiro. O senhor é que fez a sua opção, vou chamar o delegado e dizer-lhe que você agiu conscientemente.

Entretanto, na capela mortuária o Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua aproxima-se do corpo.

- Detesto ter que fazer isto outra vez, tinha jurado que nunca mais usaria os meus poderes, mas as circunstâncias a isso me obrigam, – e aproxima-se do cadáver, coloca-lhe a mão na cabeça e prossegue, – Júlio Meia-Lua, levanta-te e anda!

Um feixe de luz, vindo de cima, incide sobre o cozinheiro gorducho e este abre os olhos.

- O que é que eu estou aqui a fazer? Esta brincadeira foi longe de mais, adormecerem-me e deitarem-me aqui, hei-de descobrir os responsáveis.

A porta do gabinete do director abre-se e o médico entra.

- Delegado, pode levar o senhor Paulo Prestes, ele é o responsável pelo crime. Aqui tem o documento que lhe dá alta hospitalar.

De repente, uns gritos quebram o silêncio nocturno e todos se precipitam para o congestionado corredor. Qual não é o espanto dos presentes, quando vêem o Meia-Lua.

- Meu Deus, mas isto é milagre, – diz uma senhora muito idosa, ajoelhando-se.

- Eu, eu.... Eu, eu confirmei a sua morte, eu, eu... fiz-lhe a autópsia.

- Então foi o senhor doutor que os mandou colocarem-me na capela?

A cena é dramática, o médico tem um ataque cardíaco fulminante. Os papéis mudaram radicalmente, o morto está vivo e o vivo está morto, estranhos são os caminhos do destino.

- Este arquivo, que é da Humanidade, não tenho chaves para esta porta! - Explica, para quem o pode ouvir, o senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua.

20
Jun19

78 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - A Fusão (6ª Parte)

Narciso Baeta

 

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78

- Não doutor Lipièrre, já não vai fazer mais nada, agora sou eu que decido. Meus senhores, tenho de ir preparar-me para a viagem, ela vai exigir muito de mim!

Narciso e Rita levantam-se e vão passear para o vasto relvado que cerca a instituição. As próximas horas serão decisivas para os seus futuros, irão encontrar a paz de que desesperadamente precisam? O tempo parou para eles, não tem data, e espera algures encerrado num espaço anónimo, que alguém o empurre e o encaminhe para a hora certa. Os doutores Cinfuentes e Lipièrre permanecem sentados, em silêncio. Um casal de pardais namora atarefadamente numa poça de água, aproveitando os últimos raios de sol, que teimam em ficar na planície. Ela canta, com esforço, para o seu amado, que pica freneticamente a terra.

- Será que eles sabem onde estão? - Pergunta o médico americano.

- Devem ter mais certezas do que nós! Nascem, crescem, reproduzem-se e morrem, nada tão simples e ao mesmo tempo tão complexo.

- Mas nós também nascemos, crescemos, reproduzimo-nos e morremos, nisso somos todos iguais.

- Pensamos, Richard, no meio disso tudo pensamos, e é esse o nosso mal, o nosso grande pecado. Sócrates e Platão falaram, falaram e não disseram nada, mas no entanto explicaram tudo. As suas ideias duram há séculos e séculos, e na altura em que pensávamos estarem a ser enterradas para sempre, eis que chega um jardineiro, que só devia perceber de plantas, e nos promete levar até à Eva.

- Nesta fase das nossas vidas, devemos acreditar em tudo ou não acreditar em nada.

- Sempre o maldito do Sócrates a assoprar-nos aos ouvidos o “só sei que nada sei”! Passámos parte da vida a tentar curar os males das almas dos outros e agora são as nossas que se desfazem nas mãos.

- Álan, não temos nada a perder, só vamos ganhar!

- Ganhar, ganhar o quê?

- Ganhar os mistérios do Mundo, perceber de vez o que é a alma e isto tudo oferecido por um jardineiro cabeludo e barbudo.

- E nós a pensarmos que só os homens de fato e gravata eram os detentores do saber.

- Deuses também eram cabeludo e barbudo!

- Richard, estás a querer-me dizer que o Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua é....

- Não, não, mas deve estar tão perto!

De novo o silêncio, cúmplice e aterrador, belo e feio, feito de contrastes impossíveis e de sonhos vazios. Pensar uma vida e descobrir o nada, olhar para o horizonte e ver a harmonia. Quanto é que verão aquele Céu impávido e sereno, no meio de um anfiteatro rodeado de mundos, o ínfimo e o grandioso abraçado no mesmo espaço e em tempos diferentes. Deus, Tu que nos contemplas orgulhoso, como serão os Teus pensamentos? Estamos tão longe e tão perto de Ti, povoas-nos os sonhos e os pesadelos, és o Bem e o Mal, crias-Te as coisas simples e tornámo-nos tão complexos.

A Lua já vai alta, bonita e brilhante, lançando pela região uma cor aconchegante. O relógio da torre da igreja acaba de lançar para o ar as dez badaladas ensurdecedoras. Um autocarro ferrugento entra pelo portão principal, que está fechado, e detém-se junto da escadaria, onde quatro pessoas o esperam. A porta da frente abre-se e sai o jardineiro mais famoso de França, agora promovido a motorista, o senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua, vestindo uma exuberante túnica branca da casa de Pedro Battatini.

- Senhores passageiros, bem-vindos a uma fabulosa excursão a Laputa, com passagem pelo hospital de Highlands e pelo planeta Eva.

- Mas que chique que o senhor está, – elogia a engenheira Rita Bouvalier.

- A esperança veste-se de branco, a cor mais fascinante do Universo! - Exclama o motorista, dando uma volta com os braços abertos.

08
Jun19

77 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - A Fusão (5ª Parte)

Narciso Baeta

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77

Helias II, o último monarca da cidade sagrada Tricúspica, olha com angústia para a Lua que cresce lentamente no céu escuro.

- É estranho, poucas foram as vezes que contemplei este astro, e agora aqui está ele aumentando de dia para dia.

- Neste caso, de noite para noite! - Diz Paulo Prestes, sentado na cama. - O senhor já reparou que não tem sombra?

- Eu já não sei o que tenho e o que não tenho, estou aqui perdido, abandonado, vendo a grande missão da minha vida a desaparecer. É frustrante!

- Missão, qual missão?

- Senhor Paulo Prestes, a minha missão chama-se “Novo Olhar”, tal como a sua, e penso que chegou a altura de termos uma conversa séria.

- “Novo Olhar”? Também pertence à missão?

- A missão ainda não acabou engenheiro, falta-nos atingir o Umbigo. A tripulação da “Carraça” sofreu um contratempo, como o senhor deve saber, e é preciso reuni-los a todos. Este tempo não lhe diz nada, nós caímos na armadilha dos clones. O coronel Narciso e a engenheira Rita também estão algures neste planeta e é preciso encontrá-los.

- Encontrá-los? Mas onde?

- Fale com o neurologista Charles Thunder e invente uma história. Eles estão sempre à procura dum bom motivo para publicarem um artigo, porque têm de justificar o dinheiro que ganham. Os pacientes como vocês devem já ser poucos.

- Como é que pensa regressar à Eva?

- Primeiro temos de saber onde é que os outros estão, depois vocês devem juntar-se e em seguida serão recolhidos.

- Recolhidos, por quem?

- Desconfio que já anda alguém à vossa procura.

- Mas quem é essa pessoa?

- O nome não lhe diz nada, não o conhece!

- Como é que tem tanta certeza que eu não sei?

- Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua, está contente?

- É melhor ir-me deitar, que raio de nomes, um é o Gato-do-Sorriso-de-Ouro, este é o Cabreiro-não-sei-quantos, – diz Paulo, entrando na cama e tapando-se com os lençóis.

- Senhor engenheiro, não se esqueça do que eu lhe disse, amanhã fala com o director.

Helias II aproxima-se novamente da janela e torna a olhar para a noite.

- Entra palhaço, já estou farto desta espera, – resmunga o gato, cravando as unhas no rabo gordo do clone do monarca.

- Maldito gato, – grita baixinho. - Queres que me atire da janela ? É isso, a porta da gruta coincide com esta janela. Mas a janela está protegida com uma grade?! Só atirando com o cadeirão!

Helias II dirige-se para a cama e abana o amigo.

- Então, o que é que quer agora de mim? Já nem posso dormir.

- Preciso da sua ajuda, tem de atirar o cadeirão pela janela.

- Atirar o cadeirão pela janela? Ficou maluco de vez!

- A passagem para a gruta coincide com esta janela e eu tenho de saltar.

- Então atire o senhor a cadeira!

- Se pudesse atirava mas, aqui, estou no estado gasoso.

- Está bem, está bem, só para me ver livre de você, eu faço tudo. Calculo que se não colaborasse ficaria a noite toda a massacrar-me.

O engenheiro Paulo Prestes levanta-se com energia, acende a luz e, com um exuberante ataque de nervos, pega na mobília e arremessa-a contra a janela, despedaçando-a. O destino é uma máquina cruel, um mal necessário para o bom funcionamento do Universo: o cadeirão despenha-se do terceiro andar e cai em cima do chefe da cozinha, Júlio Meia-Lua, um emigrante português, que tem morte imediata. Três enfermeiros, dois homens e uma mulher, entram de rompante no quarto número dez e imobilizam o paciente, pondo-lhe um colete-de-forças. O engenheiro de sistemas da nave Piolho-Um ainda tem tempo de ver o monarca cardíaco a correr para a janela e a lançar-se no vazio.

- Bem-vindo à Eva, – saúda o gato sorridente, ajudando o seu amigo a levantar-se. - Já só faltam os outros três!

- E John, onde é que está?

- Vai a caminho do Umbigo.

- Mas ele não pode entrar sozinho!

- Tenha calma, ele só chega ao Umbigo quando nós quisermos.

No labirinto mágico do asilo de Salpetrière é hora de ponta, os doentes entram e saem num ritual frenético, que lhes parece lavar as almas atormentadas. O jardineiro e os seus amigos procuram despreocupadamente um espaço, e encontram-no junto à fonte.

- Não era melhor termos ido para um sítio mais calmo? - Pergunta Richard Cinfuentes.

- Este é o sítio mais calmo, não é por acaso que os utentes lhe chamam o Paraiso! -Responde o Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua ( ai de mim, autor, que não escrevesse o nome todo; ainda aparecia no meu quarto e lançava-me um feitiço ! ).

- O Paraíso, este cubículo feito de ervas, é o Paraíso?!

- Doutor Cinfuentes, tamanho nunca foi qualidade, é por isso que o Universo está a encurtar-se. Não temos tempo para filosofias, mas sim para continuarmos com a missão “Novo Olhar”. Os senhores doutores também vão tomar parte nesta última fase.

Vamos ao Umbigo da Eva!

- Senhor jardineiro (boa maneira de se safar!), e como é que vamos para o Umbigo, apanhamos a camioneta ali na esquina? - Pergunta o neurologista francês, num tom jocoso.

- Como é que adivinhou, doutor Lipiérre? Sim, vamos num autocarro que estará ali na esquina hoje à meia-noite, quando a Lua estiver bem redonda. Não se atrasem!

- Mas falta um elemento, o engenheiro Paulo Prestes, – alerta o coronel Narciso.

- Não se preocupem, nós vamos buscá-lo logo à noite.

- Buscá-lo? Mas onde é que ele está? - Pergunta a Rita.

- No hospital de Highlands?!

- Highlands? É verdade, eles têm lá doentes pós-encefalíticos, como é que eu não me lembrei? Vou telefonar para lá.

25
Mai19

76 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - A Fusão (4ª parte)

Narciso Baeta

 

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76

 

O longo beijo entre Rita e Narciso termina e ambos dirigem-se para os dois médicos, que contemplam a obra edificada pelo jardineiro do asilo de Salpetrière.

- À primeira vista o labirinto não tem nada de especial, parece muito simples, mas uma vez lá dentro a maior parte das pessoas não consegue sair, – explica o doutor Lipiérre.

- E já pensou na razão disso tudo?

- Já tentei arranjar uma explicação, mas é impossível imaginar alguma.

- E o autor, o que é que ele diz?

- Respondeu que Deus tinha deixado muitas marcas da Sua existência quando fez o Universo, e que esta é uma delas.

- Vocês têm um jardineiro filósofo. Não me diga que ele também se chama Platão?

- Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua !

- Cabreiro quê?

- Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua !

- Chamaram-me? - Pergunta o visado, aparecendo por detrás de uma árvore.

- Ó homem, de cada vez que falamos em si você aparece. Tem uns ouvidos de tísico.

- Se fossem de tísico, não escutava longe, senhor doutor, os meus ouvidos são do tamanho do Mundo.

- Senhor Cabreiro, apresento-lhe o....

- Doutor Richard Cinfuentes, neurologista do hospital de Mount Carmel, que veio acompanhado pela senhora Rita Bouvalier, engenheira da poderosa monarquia cardíaca.

- Epá, o senhor é melhor que um serviço de informações, – elogia o médico americano.

- Deus não é omnipresente, nem omnipotente, como muitos andam para aí a dizer, e devido a essa deficiência tem de usar os ouvidos e as capacidades de alguns.

- Boa-tarde meus senhores, – diz Rita, oferecendo um lindíssimo sorriso aos que a contemplam. - Aqui estamos todos reunidos para deslindar os mistérios do Universo.

- Ainda não estão todos! - Exclama o jardineiro, colocando-se no meio.

- Não estamos todos? - Pergunta o coronel Narciso. - Mas o que é que o senhor sabe, que nós não sabemos?

- Calma, calma coronel, – interrompe Alan Lipièrre. - Este senhor chama-se Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro.da-Lua, e gosta que o tratem pelo nome todo, é o jardineiro deste asilo, mas nos momentos de folga revela-se o mais sábio de todos nós. Ele já deu a entender que sabe tudo o que se está a passar, portanto sou da opinião de que o devemos escutar atentamente. A palavra é sua!

- Temos de ir falar para o labirinto.

12
Mai19

75 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - A Fusão (3ª parte)

Narciso Baeta

 

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75

A conversa incide então sobre a estranha teoria que divide ao meio o Universo, e sobre as portas que permitem a entrada para ambas as dimensões. E como em todas as conversas que vão para além da física, o debate acaba por centrar-se no génio que um dia resolveu construir a máquina perfeita: Deus. O jardineiro, que mais uma vez surpreende tudo e todos, faz uma brilhante dissertação sobre Este magnífico, mas lança a confusão quando O decide dividir em três: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

- Deus constituído por três partes ?

- Doutor, três Entes, três Espíritos pensantes e em permanente discórdia, é esta a mecânica do Universo!

- O carro, doutor, o carro chegou, – grita uma enfermeira de uma das varandas do primeiro andar.

Alan Lipiérre e Rita Bouvalier precipitam-se a alta velocidade para a entrada principal do asilo, abandonando sem escrúpulos o senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua, que ainda tem tempo para deixar escapar um pensamento:

- Meu Deus, meu Deus, tu sabes sempre o que fazes!

O carro imobiliza-se e uma das portas traseiras abre-se de rompante, deixando sair uma bonita mulher.

- Narciso!

- Rita!

O encontro é fogoso, os dois seres unem-se com estrondo e assim permanecem durante algum tempo, que parece uma eternidade. Há tanto para dar e para contar, o diálogo é silencioso e intenso, as duas almas estão agora reduzidas a um espírito comum, que brilha intensamente.

- É sempre bom assistir a um reencontro destes, – comenta o médico americano.

- É melhor do que nos filmes, – acrescenta o seu colega francês.

- Doutor Lipièrre.

- Por favor colega, trate-me por Álan.

- Álan, o seu paciente de certeza que já lhe contou muitas coisas?!

- Demais, demais para o meu pequeno espírito, que eu já julgava estar com as ideias todas arrumadinhas...doutor.

- Richard Cinfuentes, para si também só lhe interessa o meu primeiro nome. O coronel Narciso falou-lhe dos nomes dos países e do planeta onde vivia?

- Sim, mencionou o Coração, Cérebro, República do Estômago, Corpo, tudo nomes anatómicos.

- Infraespécies, já pensou que cada um de nós pode ser um planeta? - Pergunta Richard.

- Pensar pensei, mas assustei-me!

- Qualquer um de nós pode ser o planeta Corpo.

- A Rita disse-lhe como se chamava o Corpo-Dois ?

- Não, sempre se referiu ao planeta por esse nome.

- Numa destas noites o coronel Narciso estava muito agitado e uma das enfermeiras chamou-me. Entrei no quarto e ele estava semi-consciente, parecia em transe. Chamava por “Eva”, pedia-lhe para o puxar. Algum tempo depois recuperou totalmente a consciência e eu perguntei-lhe quem era a Eva. Disse-me que era o Corpo-Dois.

- Eva, a Eva?

- Sim Eva!

- Achas que poderá ser a Eva bíblica?

- Sei lá, acho que quem vai ficar doido somos nós!

- Isto é ciência pura, meu caro Richard Cinfuentes, podemos estar numa nova era que nos abrirá as portas do milénio. Andámos todas estas décadas a olhar para cima, a Lua é a nossa obsessão, e não nos apercebemos de que perto de nós há milhões de planetas. Se a Rita e o Narciso podem entrar no nosso mundo, também nós poderemos entrar no deles.

- É tudo muito bonito, mas como?

- Há dois séculos atrás voar era utópico, o mais pesado do que o ar nunca poderia erguer-se nos céus e, no entanto, hoje fez uma bela viagem entre dois continentes.

- Preparamo-nos para a união entre a Física e a Metafísica! - Exclama o neurologista americano, soltando um ar triunfante.

- A Rita disse-lhe o nome da nave em que viajaram?

- Piolho-Um.

- O nome não lhe diz nada?

- O de um animalzinho de que eu não gosto nada, e que o ano passado resolveu fazer-nos uma visita em Mount Carmel. Até eu apanhei!

- Já pensou que esses tipos de insectos em vez de serem naturais, podem ser artificiais.

- Agora já tudo é possível, nada me espanta.

05
Mai19

74 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - A Fusão (2ª parte)

Narciso Baeta

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74

- Extraordinário, – comenta o neurologista. - A tripulação do “Piolho-Um”, por razões desconhecidas, foi projectada no Tempo e no Espaço, e cada qual seguiu o seu trajecto: a Rita foi parar aos Estados Unidos, no ano de 1969, o Narciso foi parar a França, também em 1969, e o Mac a França, em 1942. O raio do Tempo é mesmo relativo!

Levanta-se, guarda a folha numa pasta e vai ter com a enfermeira-chefe, para confirmar a chegada do doutor Cinfuentes e da senhora Rita Bouvalier.

O coronel Narciso Figueiredo Baeta está de muito boa saúde, ultimamente tem dado grandes passeios pela região e hoje a ansiedade é grande, pois vai encontrar-se com a sua colega. “A Rita é o único ser que para mim é real doutor, vocês podem não passar de personagens de um sonho”, disse ele hoje de manhã durante o pequeno-almoço. Por sua vez o doutor Lipiérre também se sente muito feliz, pois esta foi a primeira vez que um paciente lhe ensinou tanta coisa. “Aprendi mais com um indivíduo catalogado de deficiente mental, em três dias, do que durante trinta anos com colegas etiquetados de intelectuais”, desabafou ontem com o jardineiro.

- O doutor Cinfuentes chega aqui por volta das dezasseis horas.

- Óptimo, óptimo, assim ainda vou ter algum tempo para falar com o coronel.

O doutor deu ordem ao corpo clínico, e a todos os funcionários em geral, para que quando se dirigissem ao senhor Narciso, o tratassem por coronel, pois era isso o que ele era, coronel do exército cardíaco. Para ele o indivíduo nunca perde a sua alma, pois esta é a sua essência, o seu bilhete de identidade no Cosmos. Neste mundo não há “malucos”, existem é almas zangadas com os seus corpos.

O neurologista, doutor Cinfuentes, entra no mercedes com a engenheira Rita Bouvalier e o carro arranca em direcção ao asilo de Salpêtrière, para um encontro que passa despercebido ao comum dos mortais, mas que é fundamental para o futuro da Humanidade. Ao lado do médico está uma mulher perdida no Tempo, com dois passados e sem nenhum futuro. Tudo para ela é novidade, dir-se-à que acabou de nascer de geração espontânea, sem país e sem planeta. Os seus olhos absorvem sofregamente o mundo, talvez à procura de algo que lhe dê alguma confiança na vida.

- Isto é tudo bonito e calmo. Quando deixei o Coração, o clima estava tão tenso, as notícias da guerra fluíam como água, ninguém se entendia, todos reclamavam e ninguém dava nada. E aqui doutor, isto é sempre assim?

- Guerras há sempre, aqui também já se sucederam conflitos devastadores. Agora estamos em paz, mas não sei até quando. A guerra está marcada na alma do Homem, ele não consegue viver sem ela.

- Homem?

- Nós pertencemos à espécie humana!

- A minha espécie é o Memoh - diz Rita, olhando com ternura para um rebanho de ovelhas - No Corpo-Dois eram verdes.

- Como é que disse que se chamava a sua espécie?

- Memoh, eu pertenço à espécie Memoh.

- Memoh!??...Memoh!?

- Porquê esse espanto doutor?

- Memoh é Homem, ao contrário! Eu costumo brincar com o meu filho aos extraterrestres, e quem faz de invasor fala sempre ao contrário. Já temos alguma experiência em falar de frente para trás.

- Então a Teoria do Espelho é verdadeira! - Exclama, fixando os seus grandes olhos negros, nos pequenos olhos azuis do médico.

Pela primeira vez o doutor Cinfuentes repara na cara sorridente que está ao seu lado. Sempre apreciou as mulheres simpáticas, geralmente tornam-se as mais bonitas.

- A Teoria do Espelho?

Rita conta que participou na planificação da missão “Novo Olhar”, e que tinham sido definidos vários objectivos. A primeira fase consistia em chegar ao Corpo-Dois, era uma operação exclusivamente política, pois já há vários anos que viajavam secretamente para este planeta. Precisaram de tornar públicos os voos, para conseguirem prosseguir com as outras fases, que iam exigir muitos recursos. Não podiam esconder por mais tempo o dinheiro que estavam a usar, já havia senadores a investigar. Apresentaram então o “Piolho-Um”, a maravilha tecnológica, a nave capaz de se deslocar ao planeta mais perto. Isto representava um salto qualitativo na espécie Memoh e uma afirmação do Coração como potência dominante. Rita lembra-se ainda da grande homenagem que a tripulação recebeu um mês antes da partida. Foram considerados como heróis nacionais. Os seus pais choraram de emoção durante toda a noite, a sua menina iria ser a primeira a pisar o Corpo-Dois. Fora tudo uma grande farsa, até a maior parte dos seus companheiros tinha sido enganada! Com a chegada ao novo astro, iniciou-se a segunda fase. Simularam várias expedições, para assim manipularem as informações que podiam ser tornadas públicas. Foi numa destas missões que surgiu a primeira contrariedade: o veículo explorador “Carraça” deveria ter-se afundado num lago de ouro, dando-se assim por terminada a exploração do pólo norte; mas, por razões naturais, nesse dia o lago encontrava-se no estado sólido e os seus colegas ultrapassaram-no sem dificuldades, e sem se aperceberem da armadilha que lhes estava destinada.

- Quem é que ia na Carraça?

- A tripulação era constituída por três pessoas, o John, cartógrafo, a Mary, bióloga e a Maria, médica.

- Quem eram os seus cúmplices?

- O coronel Narciso e o engenheiro Paulo Prestes!

- Os outros iam ser eliminados, – diz o médico com um tom agressivo.

- Não se enerve doutor, tudo isto fazia parte da terceira e mais importante fase, a confirmação da “Teoria do Espelho”.

Rita Bouvalier prossegue o relato sem deixar de absorver com emoção a paisagem multicolor. Lembra-se da sua mãe e da enorme paixão que ela tinha por flores, especialmente das amarelas. Uma festa ternurenta da mão grossa do neurologista põe-a de novo nos carris da história. A “Carraça” ultrapassou o obstáculo e encontraram o que não deveria ter sido encontrado: a Cidade Sagrada, o elo de ligação com a Teoria do Espelho.

- Mas, explique-me o que é essa teoria - pede o médico, um pouco impaciente.

- O Universo não é tão grande como pensamos

- Rita, o Universo é infinita!

- Não doutor, o Universo é finito, tem limites, mas através de uma ilusão física torna-se infinito. Algures no seu equador, tudo se comporta como se de um espelho se tratasse. E o que é que os espelhos podem fazer? Aumentar o espaço! Uma vez comprovada esta ideia, passaríamos à seguinte, que consistia em descobrir entradas para o mundo da imagem. Havia quem quisesse avançar ainda mais, o coronel Narciso dizia que para além disso tudo estava Deus e que era possível alcançá-lo.

- Espantoso!Vocês descobriram o “espelho” ?

- A equipa 1 ficou encarregue de enviar uma sonda para a zona do Umbigo, o local que nós pensávamos ser a passagem para o outro lado do “espelho”.

- Vocês passaram pelo Umbigo?

- Não, afinal havia outras entradas. O Umbigo deve ter algo muito mais importante!

Um solavanco trá-los de novo à realidade e com ela vem um silêncio pensativo.

- Anda à minha procura, doutor Lipiérre? - Pergunta o coronel, saindo do labirinto.

- Está quase na hora do reencontro, a sua amiga já está perto.

- Nunca tive tantas saudades de alguém como agora Doutor, a Rita é do meu sangue.

- Do seu sangue? E o meu, é diferente?

- Somos de espécies diferentes!

- Espécies diferentes?! Coronel, podem haver muitas diferenças entre nós, mas uma coisa temos em comum, somos ambos humanos!

- Humanos?! O que é isso?

- Espécie humana, Homem! Não me diga que não sabe o que é o Homem? É grave, qualquer dia terei de rever a minha opinião sobre si.

- A minha espécie é o Memoh, não tenho outra.

- Memo?

- O Espelho Celestial criou tantas diferenças, – diz o Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua.

- Espelho Celestial? - Pergunta o neurologista, voltando-se para o jardineiro que acaba de se “materializar” atrás de si, junto a um pinheiro.

- Então a Teoria do Espelho é verdadeira? - Questiona também o coronel.

28
Abr19

73 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - A Fusão (1ª parte)

Narciso Baeta

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73

O doutor Lipiérre senta-se junto à secretária e abre o jornal que acabou de descobrir na biblioteca. É uma edição do “Figaro” de 26 de Abril de 1942. No suplemento de “Saúde”, há um artigo sobre um caso ocorrido duas semanas antes num hospital psiquiátrico de Flandres, assinado por um psiquiatra de nome Jean Paul Lupi. Já tinha lido este texto há vários anos, trazido por um dos seus alunos da cadeira de psiquiatria.

Na altura estavam a falar sobre a “confabulação nos doentes mentais”. O assunto foi tratado numa aula e depressa caiu no esquecimento. Os factos ocorridos nestes últimos dias trouxeram-lhe à memória este texto.

Despertar ao fim de 20 anos

Há certos fenómenos que atiram por terra dogmas que julgamos irrefutáveis. Ontem aconteceu um deles! Durante a visita matinal, fui chamado por uma das enfermeiras para ir ver, com urgência, um dos pacientes do primeiro andar. Entrei no quarto número nove e vi o senhor Mac Macléu Ferreira de pé junto a uma das janelas, olhando para o jardim. Até aqui nada de anormal! Pedi que me facultassem o processo e foi aí que o impossível aconteceu. Este homem estava no hospital há vinte anos e tinha sido internado com um parkinsonismo pós-encefalítico. Estava totalmente paralisado, nem as pálpebras conseguiam fechar. Foi sempre alimentado com sondas, nunca padeceu de alguma doença e não houve qualquer atrofia nos seus membros, apesar de terem estado sempre em retracção. A “múmia”, como o pessoal lhe chamava, tinha acordado e estava ali a olhar para o vazio. Aproximei-me dele e iniciei a conversa. Mostrou-se uma pessoa calma, falou sem qualquer tipo de emoção, não sabia o que estava ali a fazer, e a única coisa que o preocupava eram os seus colegas da missão “Novo Olhar”, que iam a bordo de uma nave chamada Piolho-Um, em exploração ao “Corpo-Dois”. Disse-me que era o piloto e que, por qualquer razão que desconhecia, tinham sido desviados do rumo. Perguntou-me se estávamos no “corpo”. Se esta cena se tivesse passado com outro qualquer paciente, eu tinha considerado tratar-se apenas de uma confabulação. Mas este contou a história com tanta segurança, que a ideia com que fiquei era de que a tinha vivido. O caso é espantoso, talvez único na vida de um médico. Em termos clínicos, o senhor Mac Macléu representa um dos raros sobreviventes da “doença do sono”, a encefalite letárgica, dos anos vinte, e por outro lado, um dos pacientes que agora conseguiu ultrapassar o terrível parkinsonismo pós-encefalítico a que foi condenado. Das longas conversas que tenho tido com o paciente, ou ex-paciente, apercebi-me de que sempre teve uma vida muito activa. A sua memória está intacta mas, e este é o grande enigma, os factos da sua vida não correspondem aos relatados no processo. Este indivíduo que está à minha frente tem duas vidas completamente distintas: entrou no hospital como o dono de uma fábrica de lulas recheadas e desperta como astronauta. Até os planetas onde viveu são distintos, não conhece a Terra, é um habitante do planeta Corpo, e acabava de completar a sua missão a outro astro, o Corpo-Dois, quando tudo aconteceu.

O senhor Mac Ferreira é uma pessoa mentalmente sã, mas como é que poderei dar alta a um paciente que está noutro mundo? A primeira diligência que vamos fazer, é contactar com a família e tentar saber quais os nomes dos tripulantes da dita nave “Piolho-Um” e ver se também despertaram algures.

                        J.P.L.