![Jorge (marido Lurdinhas) Iate Marilym Regata às]()
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“O pó voltará à terra, de onde veio, e o espírito voltará a Deus, que o concedeu”
Eclesiastes 12:7
O avô deu o braço ao hóspede e encaminhou-o para a biblioteca, repleta de livros de várias gerações.
- Não sou mais do que um homem iludido, - repetiu, olhando para o neto de 62 anos, filho do Jorge de 20.
Quando passou pelas escadas que davam acesso ao piso superior, Miguel viu, numa pequena prateleira, o Santo António que estava na casa dos pais.
- Não, é talvez um bom homem, bom demais para este mundo, - respondeu o Miguel, ao mesmo tempo que procurava uma foto no telemóvel.
Quando descobriu o santo, que Maria Adelaide de Menezes Sotto Mayor Montenegro encomendara a um marceneiro, após mandar abater um carvalho na sua Quinta de Palmazões, mostrou-o ao avô.
- O destino flui, o destino está nas mãos dos homens, - retorquiu Mário de Miranda olhando espantado para o aparelho. – Gostava que o tempo recuasse para que o rapaz que perdi para a doença se erga e volte para casa, para a quinta, para trabalhar, para ter filhos, para ter uma vida plena e longa. Até agora julgava que só caminhávamos numa direção, mas desde que apareceste deste-me tantas esperanças, - e deu um beijo ao neto.
- Não avô, o destino está nas mãos de alguns homens.
- Nas tuas!
- Eu sei o vosso destino, mas será que se altera se o contar?
- Uma informação a mais e tu poderás deixar de existir, e ambos sabemos que tenho pouco tempo. Quero aproveitá-lo o mais que puder, - desabafou o médico que erguera, a muito custo e com sacrifício para a família, a Misericórdia de Baião e o respetivo hospital.
Na entrada da biblioteca deu de caras com outro objeto familiar, pendurado numa parede, a espada curva, que mencionara ao tio Victor, e apontou para ela.
- A espada de Manuel Cardoso Brochado, Sargento-Mor de Milícias do regimento nº 4 da Vila de Guimarães, filho de João Cardoso Brochado da Fonseca e de Maria Josefa de Carvalho, nasceu a 03/02/1780 e faleceu no dia 27/11/1848, - respondeu de imediato o avô, e continuou. – Grande apoiante de D. Miguel. Sabias que a Maria Adelaide, a mulher dele, era sobrinha do general José Cardoso Menezes Sottomaior Montenegro?
- General, tal como o meu pai!
- O Jorge vai chegar a general??
Os sentimentos de um pelo outro seriam sempre mais reais do que quaisquer outros. Acontecesse o que acontecesse, ambos pensavam que tinham o destino traçado, até este momento. Não sabiam se podiam mudá-lo, mas seria que deveriam tentar?
- És um paradoxo, - disse o avô abraçando o neto. – Só irás nascer daqui a dezoito anos. Espelho-me em ti e vejo-me a mim mesmo, - e tocou ao de leve na lã que estava no tear. - Sabias que o Freud dava um papel importante à tecelagem, que considerava uma invenção das mulheres?
- Nunca ouvi falar disso. Mas se foi o Freud deve haver sexo à mistura.
Riram-se!
- Desenvolveu o conceito de “inveja do pénis”, onde a tecelagem imitava a cabeleira púbica que disfarçava a genitália.
- Parece que o filho único da sobrinha do general também só pensava em sexo! – Disse o Miguel.
- O António Cardoso Brochado foi um putéfio, deu cabo da fortuna e da casa no jogo e com mulheres. A esposa, Maria Emília Ribeiro de Vasconcelos, que era do Marco da Casa do Rego, deu-lhe 5 filhos, a Virgínia, o António, o Francisco, o Joaquim e o Rodrigo Cardoso Brochado, teu bisavô materno. O Francisco Joaquim não se casou, foi para o Brasil de onde regressou rico e refez a casa do pai, adquirindo quintas na zona, que dividiu pelos irmãos. Deixou em testamento dinheiro para se construir a torre da igreja de Padronelo.
- Avô, se não fosse o Quim não estávamos aqui a ter essa conversa!
Riram-se de novo! Em cima da mesa, que estava no centro, um livro chamou à atenção do visitante.
- Dona Loba?
- É uma das fantasias do Fernando, - respondeu o avô Mário, rindo-se.
- Lembro-me de ir uivar com ele para o exterior nas férias de Natal quando vínhamos aqui a Palmazões.
- Acredita em lobisomens? – Perguntou o Fernando acabado de entrar. - Por vezes a dona Loba responde!
- O tio levou-nos várias vezes à Torre da Dona Loba.
- Vamos visitá-la. O povo conta que muitas vezes saia de casa à noite e só regressava uns meses depois, porque ia para outro mundo paralelo ao nosso. Se tivermos histórias diferentes, podemos ter memórias diferentes. – Explicou o tio.
- Mas com o meu neto aqui já não sei o que é verdade e o que é fantasia.
- “Os humanos têm o dever de ressuscitar as gerações anteriores” – leu o jovem Fernando num livro que tinha aberto nas mãos. – Sabem quem escreveu isto?
- Nunca ouvi isso – respondeu o Miguel.
- Nem eu – reforçou o avô paterno.
- Nikolai Fiodorov, o “Sócrates de Moscovo”. O pai do “Cosmismo”, um projeto que uniu a partir do final do século dezanove, na Rússia, cientistas, místicos, revolucionários e engenheiros, que tinha como principal pressuposto que a vida humana não devia ficar limitada ao tempo e ao espaço.
- O teu sobrinho, meu neto, é o exemplo do triunfo do “Comismo” …
- “Cosmismo”, pai, “Cosmismo”, – e continuou. – Oiçam esta, Fiodorov também defendia a imortalidade humana e a ressuscitação de pessoas mortas.
- Ressuscitação de pessoas mortas? – Interrompeu, um pouco exaltado, o avô do Miguel.
O neto mostrou o texto que estava no telemóvel após pesquisa no Google sobre o tema, o Dr. Mário de Miranda leu com atenção, mas a um dado momento enganou-se a puxar o texto e os ícones apareceram no mostrador. Carregou de imediato aleatoriamente num, e a biblioteca mergulhou num intenso nevoeiro, e à frente dele e do neto estavam agora quatro crianças e um jovem adulto:
- Meu Deus, o meu António, - gritou o médico aproximando-se dele, abraçando-o e dando-lhe inúmeros beijos.
As imagens em 3D estavam estáticas, mas pareciam ser reais.
- Este aqui é o meu pai, - disse o Miguel aproximando-se do segundo da direita.
- O Fernando, o Jorge, o Victor e o António, meus queridos filhos.
- E o rapaz, quem é?
- É o Joaquim, o filho do Amador e da Dulce, estavam na escada quando chegaste.
Mas rapidamente mudou para o filho desaparecido.
- O meu António, o meu querido António, - e beijou-o de novo tão profundamente, tão dolorosamente.
Miguel agarrou no telemóvel que o avô tinha deixado cair e reparou que a data tinha mudado.
- 22 de agosto de 1932!
- 1932? Estamos em Penaventosa, Baião, o António tem 1 ano!
Como num passe de mágica, o nevoeiro desapareceu e estavam de novo na biblioteca.
- Dá-me o telemóvel, dá-me o telemóvel, - gritou, tirando o aparelho com violência das mãos do neto, carregando freneticamente nos ícones.
- Este “MB” serve para quê?
- Para pagamentos!
- Dá-te notas?
- Dinheiro eletrónico, não é físico.
- E este “Sapo Mail”?
- Correio eletrónico, as cartas estão a desaparecer no meu tempo.
- E este é o “Telefone”, deduzo?
- Está certo, não preciso de ir à Estação dos Correios de cada vez que quero telefonar ou receber um telefonema.
- Noutro dia atrasei-me e não falei com o teu pai à hora combinada.
- Qual é o símbolo para viajarmos no tempo?
- Não existe isso.
- Existe sim, foi quando carreguei nele que fomos para Penaventosa. Tu sabes qual é. Este?
E mostrou o do “H3”.
- Esse é de comida!
- Diz-me, diz-me, por favor, eu quero voltar a beijar o meu António.
- Mário o que é que se passa? – Perguntou Maria da Glória irrompendo pela biblioteca.
- O António, o regresso do António é uma possibilidade, - respondeu o Dr. Mário de Miranda agarrando a mulher pela cintura e fixando o seu olhar nos olhos dela.
- Meu Deus que loucura é esta? Ressuscitar o António? Este senhor está a fazer-nos mal, deves pô-lo na rua antes que seja tarde de mais – e saiu do espaço a resmungar e a esbracejar. – Estás a enlouquecer, meu velho.
- Avô e onde é que eu entro na “ressuscitação de pessoas mortas”?
- No “tempo e no espaço”, - explicou o tio Fernando, olhando para o hóspede através das lentes dos óculos.
- Resgatas o António no passado, é curado no teu futuro, e regressa ao nosso presente, - exclamou o avô com um sorriso que há muito não tinha.
- Como? Eu nem sei como é que vim aqui parar!
- Eu vou-te ajudar – exclamou o avô do Miguel pondo-lhe a mão no ombro esquerdo. – Tu transcendeste-te através da tecnologia, esse teu aparelho …
- … o telemóvel?
- … sim, o telemóvel, é um extra do teu corpo, dá-te possibilidades de conheceres o passado, o presente e até o futuro. A fotografia que nos tiraste …
- … a selfie?
- … a foto colocou-me no teu mundo, num futuro em que já não existo, mas que ressuscitei, e passei a existir. Tiveste de te desmaterializar para chegares até aqui.
- Desmaterializar-me? Tipo liofilizado?
- Liofili quê?
- Nada, isso ainda não existe, transformar-me em pó e depois reconstruir-me?
- Mais ou menos assim!
- Atravessaste a “Hierarquia dos Seres” do S. Tomás de Aquino, mas ao contrário, - exclamou o Fernando, rindo-se.
- “Hierarquia dos Seres”??? – Interrogaram-se, olhando para o engenheiro.
- Para chegares aqui deixaste o reino dos homens, recuaste para o reino animal, depois para o reino vegetal e por fim chegaste ao reino mineral, onde te transformaste, não em pó, mas sim em partículas, pois elas movimentam-se sempre com uma finalidade.
- As cinzas do António não se perderam, encontram-se dispersas na natureza, na cova.
Os derradeiros dias do António, deitado na cama, prostrado, a tossir, a sofrer, a mãe a segurar nos braços o rapaz doente, pequeno e assustado, desesperada, num murmúrio entre a oração e a razão, sentindo a febre do filho, dando-lhe a mão, o conforto que ele precisava antes da alma levar a sua vida, a pedir a devolução da saúde do filho, a recuperação do seu sorriso. Ouvia-lhe a respiração cada vez mais tensa, ofegante, ruidosa, alternando com espasmos. Mário de Miranda já desistira de falar com os céus, o homem de ciência já sabia qual era o destino do António, e foi a partir deste momento que começou a duvidar da existência de Deus, mas mesmo que Ele existisse, era o ser mais perverso de que alguma vez ouvira falar, por isso já lhe tinha pouco respeito. O quarto estava envolto num turbilhão de sentimentos. Nos olhos do António via-se medo e traição, e a única coisa que os pais podiam dizer-lhe é que era amado. Caiam-lhe lágrimas pesadas à medida que contava ao neto os derradeiros dias do tio, cachos salgados com a cadência de um choro grave que os olhos não conseguiam controlar, no meio da dor que o desfigurava. Foram muitas as vezes que aproximou um espelho da boca do rapaz, para ver se embaciava. Um minuto antes da paragem cardíaca, o cérebro do António foi inundado por ondas gama, que lhe permitiram ter acesso a todas as memórias, e tudo ficou claro, viu a vida inteira, por isso sorriu quando sentiu uma alegria intensa, acompanhada de uma ligação a todas as coisas. Foi libertado com uma cor magenta rosado, a tonalidade das almas jovens, uma imagem da realidade entrou na mente e o espelho não ficou húmido. Tudo parou. Partiu cansado e despedaçado. Nesse momento, desequilibrado em delírio inquieto, o pai tentou desesperado sentir-lhe o coração, abraçou-o, beijou-o, chamou-o, sentiu-se perdido, oprimido pelo peso do mundo. A baba espumosa, de tanta raiva, escorria-lhe pelos cantos da boca, estava perdido tateando na escuridão que a vida se tornara. O António ainda o ouviu: “Onde irás reencarnar meu querido filho?” Mário de Miranda era um leitor assíduo de Allan Kardec. Como homem da ciência sabia que muitas células do seu querido filho continuavam cheias de vida, embora o seu processo de desconstrução fosse agora irreversível. Morrera enquanto vivera, e iria continuar vivo depois de morrer. Os caminhos minuciosos da profissão, e o amor incondicional aos outros filhos, não lhe permitiram o quebranto, o filho António continuava presente, ouvia-lhe as palavras, o som dos passos, as gargalhadas. A 4/08/1930 fora batizado com urgência na Igreja de Campelo por estar em perigo de vida com coqueluche. Talvez a ausência de fé do Jorge tivesse tido aqui a sua origem, porque se houvesse bondade, ela nunca permitiria tanto sofrimento. O mundo é o que vemos e não o que de facto é, com um deus ausente entre os esquecidos. O Dr. Mário de Miranda não quis acordar os filhos, porque enquanto dormissem ainda tinham o irmão António. Maria da Glória acendeu duas velas junto ao crucifixo de prata que estava na mesa de cabeceira. Contemplou o filho, sereno, imóvel e pálido. Umas horas depois os fotões do filho tocaram-lhe na cara, e ela sentiu o seu cheiro.
- No ano seguinte apareceu o remédio que o salvaria. Tu tens de levar-me ao teu tio, - pediu, agarrando com força o braço esquerdo do neto.
O luto pelo filho, que o começou a matar lentamente, atenuara-se com a visita inesperada do descendente.
- Imagino-o a correr para os meus braços, a abraçá-lo, a beijá-lo, a não o largar mais.
Que força seria necessária para abraçar alguém que já morrera uma vez?
Um curto silêncio abateu-se sobre todos, até que o tio Fernando resolveu mudar de assunto, o pai estava muito exaltado, e isso podia fazer-lhe mal. Não sabia era que o processo metabólico do Dr. Mário de Miranda já o encaminhava para o fim.
- Dizem que quem passa pela casa da Dona Loba nos dias ventosos de lua nova, ouve os seus soluços a saírem do que resta da casa.
Seria aquele local, cujas ruínas o tio Fernando gostava tanto de mostrar à família, alturas em que o Leão, um rafeiro que passava a vida acorrentado, era solto pelo pai, quando esta se reunia nas férias de Natal em Amarante na quinta da avó Maria, um local com um mecanismo de transferência quântica?
- Vamos até lá – convidou o tio Fernando.
A ruína da torre residencial de granito de grandes dimensões, implantada numa encosta cuja fachada principal era rasgada por um arco apareceu do meio do mato.
- Está igualzinha há do meu tempo, - exclamou o Miguel.
Mas desta vez quem os acompanhou não foi o Leão, mas sim a cadela, a Neve.
- Viveu aqui na época medieval a Dona Loba Mendes, que era filha de Mem de Gondar, - disse o tio Fernando, e continuou. – Diziam que era uma mulher rica, avarenta e malvada, cujos cães ladravam sempre aos pobres que se aproximavam do solar.
- Então podemos estar descansados, iremos ser bem recebidos, - interrompeu o hóspede, rindo-se.
- Mas temos de vir num dia ventoso de lua nova! – Retorquiu o jovem Fernando, deixando também sair um sorriso trocista. – Tinha dois pisos. Estás a ver aqueles cachorros em pedra no interior?
Miguel entrou no espaço e olhou:
- Sim!
- Serviam para suportarem o pavimento do piso superior.
- A Dona Loba não recebia ninguém?
- Dizem que só o Frei Gonçalo lá entrou na altura em que precisava de pedras do local para construir a ponte. Foi pedir-lhe uns bois emprestados.
- E ela emprestou?
- Sim, uns animais enormes que estavam no pasto em estado selvagem.
- A velha pensou que o Frei fosse para obras quando os fosse buscar, - retorquiu Miguel, rindo-se de novo.
- Mas aconteceu o contrário, os animais foram muito mansos para o padre.
O tio ainda disse o que sempre contara, que a largura das paredes era tão grande que uma carroça com os animais podia lá andar.