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Burocracia na Morte

“O conhecimento da Hora só a Deus pertence, só Deus a fará surgir quando tiver de surgir. Ela será penosa nos céus e na terra e surpreender-vos-ás de um momento para o outro.” Maomé

“O conhecimento da Hora só a Deus pertence, só Deus a fará surgir quando tiver de surgir. Ela será penosa nos céus e na terra e surpreender-vos-ás de um momento para o outro.” Maomé

Burocracia na Morte

18
Jan20

94 - A Miúda do Lenço

Narciso Baeta

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94

Há um vórtice do destino à nossa volta que aumenta com cada uma das nossas escolhas, e modifica as sinas das nossas mãos.

Era um drama terreno com culpas cósmicas, que fazia com que as fronteiras formais não fizessem parte daquele espaço, cujas paredes do quarto há muito se tinham tornado no seu mundo. A solução do mistério iria ser insólita e complexa, com culpas abafadas ao longo dos vinte tormentosos anos do João, que fazia agora parte dos inquilinos do Instituto de Medicina Legal de Lisboa. O inspetor Bartolomeu abriu o processo que lhe tinha sido distribuído:

- Paralisia Cerebral, com tetraparésia espástica, Síndrome de West, grave deficiência mental…- leu . – E tudo por causa de uma anóxia.

A doença do doutor Matias estragou-lhe a vida e tirou-lhe os sonhos, fê-lo magoar pessoas, sem dar por isso. Ao princípio ainda conseguia saber quem era ao acordar de manhã. Quanto mais perdido se sentia, mais necessidade tinha de testar a sua identidade. Quando avançava para o presente a memória desfazia-se em cinzas, resistiu como pode ao seu avanço, que lhe apagava o discernimento e as linhas do rosto de quem o rodeava. Nem os autocolantes, agarrados como lapas às coisas, uma espécie de memórias externas, o salvaram do lento afundar no esquecimento de si e dos outros. O seu nome tinha todos os desvarios e todas as errâncias, todas as grandezas e todas as decadências. Agora havia lentidão, a doença tinha abolido a ofegante velocidade de médico cirurgião, estava permanentemente à escuta, pergunta após pergunta, observava minuciosamente o mundo novo em que se hospedara, tentando sobreviver no meio das duas realidades, a dos outros e a sua, metido consigo, cansado, de voz apagada, com a alma entre as mãos, desiludido. Henrique estava a caminho do centro da noite, rodeado por um nevoeiro espesso, tentando sempre encontrar um interruptor que acendesse uma luz, no meio de uma memória alucinada e lúcida. Por vezes conseguia-o, mas era sempre por breves instantes, sinal de que o tempo se fazia e desfazia, assim como a sua história. Chorava. E muitas vezes a mulher, via-o chorar. O discurso estava cheio de curvas e por isso pedia muitas vezes ajuda para o ar. Até onde é que continuava a ser ele mesmo? Até onde é que aquele rosto do espelho se afastara por causa da doença, que o atingira tão novo? Qual a fronteira a partir da qual o “eu” passava a “ele”? Não conseguia avaliar o que os outros começaram a ver nele, emoções espontâneas e muitas frases soltas, de alguém que estava encostado à vida, a agarrar com força as suas paredes, mas sem fazer parte dela, sem senti-la. Estava a cair abruptamente num pesadelo que nunca agendara para a sua vida, porque não conseguia safar-se fora do seu mundo mental derrotado.

09
Jan20

93 - A Miúda do Lenço

Narciso Baeta

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93

A grande bênção de Deus é que, a cada momento, podemos recriar-nos. Cada momento é uma oportunidade de fazer uma escolha. A escolha de pensar um bom pensamento, de pensar um mau pensamento, de reagir a ele, de deixá-lo passar. O pecado é só a incapacidade de escolher a bondade. A bondade é uma escolha!

Fátima 23 de dezembro de 2011.

Não, o Jorge ainda não casou e se queres que te diga, não tem intenção de o fazer já. Vai namorando, tem uma boa cabeça e faz tudo com uma inteligência que me surpreende. Faz amigos e amigas em todo o lado, é super popular, mas muito, muito simples. Nem sei a quem sai. A tua Carlota é mesmo a tua cara. Parecias tu. Só que não podia ser. Mas de repente foi um "olha a Sesaltina". Já tem namorado? E tu, pelo que me disse a Natália, estás muito bem. A Natália está sofisticada, anda sempre impecável. Quanto a mim, cá vou. Ainda não acabei o tratamento que continua a não ser pera doce. Mas tenho coisas boas, e essas é que realmente interessam. Um grande beijinho, a ver se um destes dias combinamos um café rápido no Shopping. Daqueles ao fim da tarde, um bocadinho à pressa. Mas como nós sabemos fazer resumos, dizemos tudo. Um grande beijinho de todos para todos.

 

Sesaltina, 8 de julho de 2012.

 

Olá Fátima, preciso muito de falar contigo ao telefone, pode ser? O meu numero é 910000000 mas como não pago a chamada manda-me um sms p.f. com o teu num que eu ligo-te. Bjs e até breve

 

Na Casa do Lago, a meio caminho entre os dois dúplex que serviam de habitação ao senhor João e à mulher, a dona Rosa, caseiros, e ao senhor Manuel, motorista, e à mulher Blondina, vivia a filha do coronel Osório, Palmira, casada com o doutor Henrique Matias, que deambulava diariamente pela vasta vivenda, perdido nas alucinações da Doença de Alzheimer. Num anexo a Maria José, criada e mãe solteira, era o seu braço direito e fiel amiga, que estava eternamente agradecida à patroa por a ter acolhido na gravidez de adolescente acossada. E um parto difícil tinha transformado a vida do seu Joãozinho num inferno, só atenuado pelas mãos de fada destas duas mulheres. Chegara agora a vez do infeliz ser chamado para junto do Senhor. Não muito longe dali o investigador incumbido de descobrir a causa da morte do Joãozinho dava início, contrariado, à missão que lhe fora distribuída. Na escola que o rapazito frequentara, Bartolomeu deu de caras com um mundo vivo, com personagens caóticas e orgânicas, presas num ambiente claustrofóbico e insano. Sentiu-lhes a respiração possível e viu que nos seus olhares havia uma vontade de falar, porque gritavam sem voz. Eram homens e mulheres em constante conflito, vítimas da rejeição e ignorância do passado, e catalogados no presente como “socialmente diferentes”, que comunicavam mais pelos gestos do que pelas palavras. Depressa descobriu a primeira qualidade desta gente, não fingiam ser o que não eram, com eles todos aprendiam a ser autênticos. Sentiu o cheiro agreste de fezes e urina. A cena era tão comovente como perturbadora. Estava perante um hipotético crime incomum, que teria passado despercebido se o corpo tivesse ido parar às mãos de uma médica comum, onde o simples bom senso imporia uma solução óbvia. Espreitou para outra sala, também tão lúgubre e silenciosa que, só de olhar, se emocionou. Tossiu uma tosse seca e nervosa, e esfregou, com rapidez e repetição, as mãos uma na outra.

- A intransigência trouxe-me aqui – disse, com uma voz com um travo de tédio, resguardando cuidadosamente do olhar aquele mundo de emoções.

29
Dez19

92 - A Miúda do Lenço

Narciso Baeta

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92

- Nunca ninguém falou com eles? – Interveio Sara.

- Houve muitos mal entendidos, - respondeu a governanta, acariciando a figura do candeeiro do papagaio embalsamado.

- Mal entendidos?

- Na comunicação, uns pensaram uma coisa, outros outra, e acabaram por magoar-se mutuamente.

- Agora o problema da comunicação está resolvido, – exclamou Isabel com um ar triunfante, e um sorriso de orelha a orelha, mostrando o portátil. – Com isto não pode haver enganos.

A conversa continuou, a governanta mostrou às raparigas o caderno de anotações da bisavó Matilde, que a mãe da Sara tinha deitado para o lixo, e que ela guardara, à espera do momento oportuno para o mostrar. Antes de morrer a antiga patroa pedira-lhe para tratar com carinho os seus fantasmas e passar a mensagem às gerações seguintes. Não conseguira convencer nem a avó nem a mãe de Sara, e agora com a idade avançada já pensava que falhara a missão, porque era duma missão que se tratava. Sara e Isabel eram agora a sua última esperança.

- Olá Quitéria, - gritou Filipe, o jardineiro do palácio, de longe, acenando com a mão.

Esta relação dava uma meditação lúdica sobre a realidade e a ficção, conceitos que não são nada óbvios, porque estão sujeitos a uma realidade periclitante. Ensinar-nos-á a aceitar uma fatalidade nua, crua, sem pudor e em que as emoções falam pelos corpos. Por isso a história de Quitéria da Conceição e de António Filipe escreve-se devagarinho, umas páginas aqui, outras ali, por vezes volta-se, porque a fama deles foi o resultado de uma estranha e intensa relação, cercada por prisões afetivas, que teve um profundo amor pelo vinho límpido e sem atalhos. Mesmo quando a descrição da relação é cruel no retrato, as palavras magoam, mas também são convencionais, lúdicas, acabam sempre por vir à procura do outro lado, capaz de justificar as decisões que os levaram para sítios inesperados, porque para eles o tempo era para ser vivido e não desperdiçado. Ela era uma mulher sem raízes e sempre em fuga, não pertencia a parte nenhuma e estava em toda a parte; ele era muito bem mal-afamado, um homem marcado por um passado, ambos estavam muito longe do paraíso perdido, eram náufragos na pequena vila de Paço de Arcos, destinados a tocarem-se e a divergirem de todas as vicissitudes, que os levavam muitas vezes a unirem-se como dois ponteiros de um mostrador de um relógio à meia noite.

 

21
Dez19

91 - A Miúda do Lenço

Narciso Baeta

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- Bom-dia senhor João – cumprimentou.

- Só se for para si, - respondeu a mulher, sem levantar a cabeça da galinha responsável pela canja da noite.

A dona Rosa tratava agora de duas famílias, da sua, como sempre fizera, e do patrão Osório, perdido algures no enorme palacete, que se erguia na parte mais nobre da quinta do alto de Paço de Arcos. Quando a dona Mercedes morreu deixou um vazio na família e um buracão no coronel. Os filhos vivos, o Jóny, com “y” por insistência da mãe, e a Palmira, revezavam-se para nunca deixarem o pai, de quem tanto gostavam, sozinho. O John, fruto de uma relação de solteiro em Inglaterra, há muito que morrera ao serviço da RAF na Segunda Grande Guerra. O coronel Osório passava agora os dias a citar Mouzinho de Albuquerque: «Chega a ter-se inveja dos mortos».

Na sala da lareira, a divisão mais importante do palacete do avô, Sara, filha do Jóny, pôs um vinil, e reparou que as vozes que saíam daquele disco pesadíssimo costumavam chamar todos os fantasmas. Fartou-se, eram demasiados a assombrar o local. Tinham atravessado, incólumes, o limiar dos séculos dezanove e vinte, e tudo graças à bisavó Matilde que achava graça às portas a baterem a meio da noite, ao soalho a ranger na escuridão, ao relógio que dava as badaladas fora de horas, às correntes que rangiam no torreão, ou seja, uma miríade de relações afetivas que se cruzavam, descruzavam e recruzavam eternamente. Sara era uma adolescente divertida e verborreica, dotada de um passado conflituoso com a escola e de um futuro radioso com…a escola. A mudança dera-se durante umas férias de Natal ainda a avó Mercedes era viva, em que levara a amiga Isabel.

- E o perfume que deixam, meninas? – Disse a dona Adelaide.

– Rosa com mistura de naftalina, horrível. Ao menos podiam ter evoluído, mas não, sempre a mesma coisa sem graça, – protestou Sara

- Mas já tentou falar com eles? – Perguntou a Isabel olhando para a governanta.

- Tentei tudo, mas ficam caladinhos. A mãe da sarinha conta que a bisavó dizia que eles se escondem nos candeeiros.

- Mas quais, eles são tantos! – Indignou-se Sara.

- Eu desconfio que sei qual é, - exclamou a governanta com uma voz baixinha e aproximando-se das raparigas.

- Já os viu? – Insistiu Isabel.

- Por vezes vejo-os quando semicerro os olhos.

30
Nov19

90 - A Miúda do Lenço

Narciso Baeta

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90

Fátima, 21 de dezembro de 2011.

Um Natal cheio de sonhos e algumas boas realidades para ti. Encontrei há pouco a Natália no Shopping. Mandei um beijinho por ela. Tenho estado para te dizer, vi a tua Carlota aí ao pé da tua casa um destes dias. És tu, tal e qual. A miúda está uma mulher. Mas é impressionante, vi a tua cara. Espero que esteja tudo nos conformes. Beijinhos cá de casa.

Sesaltina, 22 de dezembro de 2011.

....Obrigada! Sabes os meus genes são muito fortes comparados com "outros", daí que as miúdas são as duas parecidas comigo!!! Mas o que elas herdaram mesmo de mim foi o caráter e a força...estão crescidas e eu orgulhosa da minha prole. E tu como estás? E o teu Jorge já casou??? Muito beijinhos nossos e até um destes dias... continuas linda como sempre.

Passavam poucos minutos do meio-dia e o sol já escaldava as cabeças. Carlos, o ajudante do senhor José da vacaria, passou pelo João, o caseiro da Quinta de São Miguel dos Arcos, e a sua neta, a Quitéria, enfiada num grande chapéu do Benfica, a folhear uma revista, e desconfiou que ela também o admirava como todas as outras com quem já se cruzara. Carlos era daquelas pessoas que não gostava da sua própria companhia, nascera com a nostalgia da vida, tentara pôr solas novas na alma, tinha permanentes mudanças de humor, que faziam com que os outros estivessem sempre a prever o estado do tempo. Vasco, irmão da Quitéria, um rapaz com as maçãs do rosto vincadas, lábios grossos, sobrancelhas espessas, bigode fino e cabelo desalinhado, piscou-lhe um olho, ao mesmo tempo que mostrou os pêlos do peito, abrindo a camisa de seda vermelha, convidando aquele homem melancólico e taciturno, desiludido e zangado com a vida, com o corpo metido para dentro, que se sentia desde sempre vítima de um absurdo injusto e inclemente, duma overdose de lamentos e queixumes, a abraçar o pecado. Carlos escarrou para o chão com uma violência homofóbica de uma inclinação inconfessada, que gerava conflitos internos violentos, ao mesmo tempo que lançava um olhar esbugalhado, com suor a escorrer-lhe pelo rosto.

16
Nov19

89 - A Miúda do Lenço - Pontos nos "is"!

Narciso Baeta

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89

Se a maior parte dos homens fossem Deus, comportavam-se como o Diabo. Por isso Deus fez-se todo azul, uma cor que não existe na vossa Bíblia. Através das cores que espalhou pelo Universo, Deus consegue saber quem acredita Nele. Por isso no desenrolar dos acontecimentos universais há portas que se fecham para sempre e outras que se abrem em lugares inesperados, todos navegam entre as profundezas e a superfície da vida, onde para uns Deus é a resposta, para outros Deus é a questão. No entanto, Ele deu-nos a capacidade para fazer perguntas e não para dar respostas, pois será sempre Aquele que nos mostrará o caminho, por vezes com incontáveis horrores. O que se conta nestas estórias, que fazem parte de uma estória física, emotiva, visceral, de outra maneira não poderia ter sido escrita, de páginas sofridas e zangadas, escritas a partir do interior da dor, que são uma forma de descrever um processo metabólico, é mais importante do que uma vida, por isso as mortes que acontecerem têm que acontecer, são esmagadoras de tão poderosas, capazes de nos descarnar emoções, não conseguindo esconder a crueza da violência sofrida. São profundamente humanas na busca incessante das essências da vida em que cada uma se insere, e que ficará ao critério dos leitores escolher as personagens destas aventuras, que fazem com que no final de cada dia só tenhamos as pessoas em quem confiamos. São estórias antigas que só agora se libertam dos seus sótãos sombrios, viagens no tempo que nos devolvem sempre ao passado. O verdadeiro tema é algo de muito difuso, denso, interior, inconfessável, as coisas aconteceram mas não se propagaram, ficaram para sempre num lugar onde não se podem definir, nem ressuscitar, nem reparar. Tudo aconteceu num tempo difuso, num presente vago, as personagens enterraram no silêncio as mágoas que a vida lhes fez, e algumas só têm passado, só se lembram delas melhor do que são. As nossas vidas são feitas com a morte dos outros, quer sejam pessoas ou células, é por isso que vivemos várias vidas, e em muitas delas há quem prefira ser temido do que amado, e há quem reze por aqueles que o perseguem. Ouvirão sussurros a sair das páginas, serão embalados por estórias com um minuto, através delas tomamos consciência de que Deus parece estar descontrolado e cruel e constatamos a fragilidade da vida. Por favor, confiem no vosso coração e acreditem em tudo o que lerem, não liguem ao tempo porque ele está descontrolado, e se não conseguirem dormir é porque estão acordados no sonho de alguém, esta continuidade desenrola-se sobre a força imaginativa das emoções.

10
Nov19

88 - Cordeiro Verde - Acrescentos - Do encontro com o Anjo Confuso de nome Tátá e com um medo profundo

Narciso Baeta

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88

Foi um encontro curioso quanto inesperado. Tátá era um anjo patético e confuso, defensor dos seres destituídos de afectos, com uma obsessão alucinante pela vida. Era considerado um ser notável, que transmitia energia e poder. Sentia-se a vibração no ar porque a frequência que emitia era forte. Estava sentado numa secretária junto à porta de acesso à Casa de Deus, e tinha por detrás de si, pendurado na parede, um quadro de grandes dimensões. E foi a pintura que primeiro chamou a atenção do detective Narciso Serapitola Figueiredo Baeta.

- Magnífica, que obra de arte!

- Representa Deus e foi pintado pelo único ser do Universo que O conseguiu representar: Da Vinci! - Explicou o Espírito Livre.

O detective imaginou-O em si. A pintura de Deus era a pintura do medo, do esplendor, do amor, da promessa, da ameaça. Ele sabia que por debaixo da claridade de Deus havia sempre uma escuridão.

- Eu nunca o imaginei assim, com uma forma. Sempre pensei em algo…gasoso, rodeado de luxos e extravagâncias.

Tátá nem levantou a cabeça, ignorou-os.

- Está a desenhar micróbios, - disse o Espírito Livre quando reparou que o detective olhava para o anjo.

- Desenhar micróbios?

- É a função dele.

Do lado esquerdo havia uma enorme escadaria e foi por lá que seguiram. O detective reparou que as paredes estavam cheias de “graffitis”, com representações da morte, da vida e dos sentimentos, que no seu caso estavam à flor da pele.

- Um momento, – chamou alguém quando o detective se preparava para abrir a Porta de Deus.

Era o Anjo Confuso, que odiava e amava demasiado as pessoas ao mesmo tempo. Odiava-se a si mesmo, odiava a sua essência interna, a sua ternura, a gentileza extrema, a fragilidade. Pertencia a uma família de diabos de cauda curta, que o tinham renegado. As suas inseguranças e fraquezas perseguiam-no, desafiava a morte como incentivo para a vida, e isso era muito doloroso e triste para este anjo dotado de uma vontade indómita de viver. Acreditava que os momentos de solidão, reflexão e de tristeza eram fundamentais para se descer ao mais íntimo, ao mais profundo e ao mais negro, para assim se retirar de lá os impulsos para a vida.

- Cuidado com os efeitos perversos destes desenhos, - disse Tátá com uma voz cristalina, sem conseguir encarar os estranhos.

O Anjo Confuso tinha uma história tão longa e aventurosa como o território que representava.

- Senhor, sei o que procura. Consta que na “Colina de Ouro” em Bactria vive lá alguém com cinco “ideias” de Lilith.

- Bactria?

- É por aí, - respondeu Tátá, apontando para uma portinhola do lado esquerdo da grande.

Quando o detective Narciso Serapitola Figueiredo Baeta a abriu, viu que do outro lado o mar corria para eles enlouquecido e elegante, cheio de fluxos e refluxos, de correntes e remoinhos. Estava na cabine com os pés dentro de água.

- Meus senhores, houve uma rotura dum cano e a casa-de-banho vai ser encerrada.

 

28
Out19

87 - Cordeiro Verde - Acrescentos - Do encontro com Nossa Senhora e o carcereiro de nome Darik

Narciso Baeta

 

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87

 

De tempos a tempos um cometa tocava em Plutão que, no espaço de um momento, ficava com o céu iluminado. Conheciam-no como o “cometa negro” e era lá que se situava a Torre de Darik, que trazia sempre uma colecção de monstros mimados. Quem teve o privilégio de estar perto, ouviu a voz arrastada e incompreensível do cantor, que não tinha pudores em revelar todas as suas fraquezas e o seu estado de negação contra a verdade, que lhe causava tristeza e ansiedade. Chorava e transmitia por música e palavras a cultura dos povos que o habitavam. Enquanto o cometa estava junto ao planeta, havia sempre romarias à torre para assistirem à sua falsidade tão bela. Aparecia sempre repentinamente nas ameias o espectro de uma mulher deitada. Momentos depois um homem vestido de preto aproximava-se e olhava para o corpo dela, morto há muito. Quando lhe tocava uma sombra bela abatia-se sobre a multidão e transformava os seus traços numa única cor. Diziam que era a alma da “Nossa Senhora”, cuja origem se perdia na noite dos tempos, e era nesses momentos que se podia admirar a sua poderosa e genuína voz.

- As confissões desta senhora são de uma autenticidade desarmante, – disse o Espírito Livre ao detective Narciso, interrompendo o silêncio contemplativo causado pela iluminação repentina que quebrou o céu, demasiado uniformizado pelo brilho permanente das outras estrelas. – A sua autenticidade é sedutora, é brutalmente honesta, é uma figura totémica belíssima e decadente, porque está em decomposição. É sempre um privilégio ouvi-la e ao canto dos seus corvos.

Darik enfrentava sozinho os seus demónios pessoais de vingança e de justiça pelas próprias. O filho morrera na sua presença atropelado por um médico que sofrera uma síncope cardíaca depois de ter assassinado toda a família. Para ele Deus não passava de um mentiroso porque fora Ele quem matara aquele que amava. Andava desesperado à procura das “ideias” que deram um dia forma ao seu rapaz e já descobrira algumas, que guardava religiosamente numa caixa de prata. Como todos os génios, vivia perto do precipício.

- Qual é a ligação entre Darik e a “Nossa Senhora”? – Perguntou o detective Narciso.

- Ela só renascerá se ele der a Laputa a última “ideia” que falta, que está escondida algures na torre. Dizem também que Darik guarda dentro de si partes de Lilith.

Quem guardava a torre era o “Clã das Ilhas”, o primeiro povo que se formou depois do “BigBang”. Exprimiam-se através de conversas sobre a morte e a memória, porque só conseguiram sobreviver comendo todos os seus filhos, excepto um de nome Zeus, que comia pouco e por isso não tinha muita carne para oferecer.

- Inconscientemente Darik com a sua atitude está a criar buracos nas fronteiras e a encher espaços vitais com um ódio brutal a Deus. Já conseguiu tornar-se proprietário da sua própria alma, continuou o Espírito Livre. – Deus e Darik estão cada vez mais perto um do outro.

Quando a figura de Darik apareceu, todos sentiram um estremecimento, um ardor, um impulso, um ímpeto. Ele era um improvisador inesgotável e um experimentador compulsivo, cheio de memórias e de ruídos dos fantasmas do passado. Ele queria saber a razão do jogo cruel. Porquê estes laços através de um jogo de espelhos dum deus indiferente a eles? Este luto obstinado precisava de um fim porque Laputa estava a ser prejudicada. O Espírito Livre e o detective Narciso repararam que ele olhava para eles com uma intensidade que os parecia cegar, ao mesmo tempo que fazia gestos maníacos e meticulosos.

- Já há palavras a mais no mundo, - disse Darik levantando-se e encaminhando-se para uma janela larga, tocando com a cara na vidraça. – Ele anda por aí!

- Eles, - interrompeu o Espírito Livre. – O teu e os de muitos foram os escolhidos por serem os melhores. As missões que lhes foram confiadas são das mais nobres. Deves ter orgulho e não ódio!

Antes que o seu gesto aparecesse o vidro reflectiu esbatido o desejo de Darik e ficaram ambos frente a frente uma última vez, como num confessionário. Reparou que o filho já era um homem e estava feliz. O detective Narciso Baeta tinha uma característica peculiar. Quando se calava parava o olho direito, enquanto que o seu companheiro de viagem, o anjo que dava sopro às vidas, abanava as asas quando falava. A face sorridente de Darik indicava que acabara de cortar com o passado e pensava numa forma de se soltar da maldade absoluta e retornar à dura honradez. Abriu um armário e calçou uns elegantes sapatos de salto alto, tentando assim ultrapassar o invencível ressentimento contra a arrogância. Ao espelho apercebeu-se da rotundidade do corpo. Falou quase para dentro, trazendo de novo o belo para o seu mundo, dando de comer aos sentidos. Tinha acabado de ganhar paz e felicidade. O detective recebeu com prazer o pequeno cofre com a “ideia” de Lilith, despediu-se do Espírito Livre e abriu a porta do WC.

- Até amanhã!

Não ouviu o desabafo do seu companheiro:

- Culpam-no de tudo, mas não querem ser acusados de nada. A causa da morte do filho só poderia ser atribuída ao “Livre Arbítrio”. Darik levava uma vida impossível de ser vivida. E mais uma coisa, nunca perguntes a ti próprio o que é Deus, é muito perigoso!

 

11
Out19

86 - Cordeiro Verde - Acrescentos - Do "Grande Silêncio" até à Porta do Reino de Deus

Narciso Baeta

 

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 86

Percorreram cordilheiras, mares, desertos, florestas, estepes, selvas, até aparecer a vastidão da única cidade, Scarpia. O silêncio teve um papel central em Plutão, porque antecedeu a chegada das grandes convulsões, das enormes tempestades, que trouxeram o sofrimento e a revolta. O mais importante foi o seu lado benigno, que fez com que fosse eleito para Porta do Reino de Deus, a mais alta condecoração que Laputa dava aos planetas.

- Os habitantes desta magnífica terra que são o fruto de conquistas e derrotas, rupturas e continuidades, de fusões e cisões, também se consideram filhos de Deus, - disse o Espírito Livre, interrompendo o silêncio.

Quando a ordem foi restabelecida, houve uma tumultuosa crise de consciência, porque todos se interrogaram como é que tinham chegado àquela loucura e àquele mal? O conflito teve origem num dia quente de Verão, quando um deputado da comunidade de Zião, do pólo sul, resolveu proclamar no parlamento a morte de Deus, como sinal de protesto contra a morte acidental da sua jovem mulher por um meteorito que chocara contra o planeta, o primeiro desde a sua existência. Se Deus existisse nunca teria permitido que tal acontecesse, por ser fisicamente impossível algo natural atravessar a agressiva atmosfera do planeta. Os Patchéus do pólo norte, amantes fundamentalistas de Deus, a quem consideravam a Verdade Absoluta, declararam o povo de Zião subverssivo e iniciaram uma guerra, que acabou por envolver todas as comunidades e muitos conceitos. Quando os amigos de Lilith restabeleceram a lei e a ordem, mostraram as provas definitivas de que Deus existia, pois deixara no cérebro de todos os seres do Universo a sua assinatura, que dava pelo nome de “substância negra”. “Deus” passou a ser uma verdade absoluta, indiscutível.

- Mas a “substância negra” não existe em todos os cérebros, - indignou-se Miguel.

- Só nas criaturas falsas é que não existe!

-“Criaturas falsas”?!

- Seres que não têm clone, e como tal não foram feitos por Deus.

- “Clone”?!

- Algures no Universo há um clone teu, uma espécie de molde, para o caso de Laputa ordenar que tu renasças depois de morreres e das ideias que te davam consistência se terem desagregado e espalhado. O clone tem inscrito a sequência das tuas ideias, bastando para isso procurá-las e juntá-las, para que tu voltes. É o que estão fazendo com Lilith, Deus quer e o Cordeiro Verde anda à procura das suas partes.

- “Cordeiro Verde”?!

- O Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo e faz outras coisas.

As bandeiras coloridas que abanavam ao sabor do vento em cima dos edifícios, indicavam os vários sectores da cidade. Os Piratas de Plutão tinham separado as forças em conflito e exerciam um controle absoluto sobre elas, para que a paz fosse possível. Estavam separados por crenças e convicções, e tentavam resolver os problemas em reuniões contínuas desde então.Mas a ideia principal, que fora o motivo do longo conflito, mantinha-se: “Livre Arbítrio”. Para uns existia, para outros não passava de uma ilusão. Com a unanimidade na existência de Deus, logo surgiu outro problema: quanto tempo demorara Ele a fazer o Mundo?

- Para os vermelhos o número treze era a verdade, para os azuis o sete, para os verdes os vinte, - explicou o Espírito Livre, que estava atento às manobras de aproximação da nave.

 

21
Set19

85 - Cordeiro Verde - Acrescentos - A Paixão de Deus

Narciso Baeta

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85

 

“ ENTENDO PELO NOME DE DEUS UMA SUBSTÂNCIA INFINITA, IMUTÁVEL, INDEPENDENTE, OMNISCIENTE, OMNIPOTENTE, PELA QUAL EU PRÓPRIO E AS COISAS QUE EXISTEM (SE ALGUMAS EXISTEM) FORAM CRIADAS E PRODUZIDAS “

DESCARTES

 

Quando um arco luminoso, belo, misterioso e complexo riscou o céu, ficou à vista de todos o lendário poder magnético de Plutão, uma das portas de entrada de Laputa. Estavam no território dos maiores monstros do Sistema Solar, um seres zelosos e cumpridores, que tinham por missão dar um nexo às pontas soltas do Universo, as penas, as dores e as esperanças. Eram maus com um fundo bom, eram os únicos que faziam pausas nas fúrias.

- Plutão deu-lhes o que Leve teimou em não lhes dar, – desabafou o Espírito Livre, pondo a mão no ombro de Miguel.

- O que eu vejo não condiz com o que dizem.

- Para os senhores deste espaço, Lilith é um anja e tem um segredo.

- Segredo?!!

- É a grande paixão de Deus, Ele teve para abandonar Laputa e ir atrás desta anja de duas faces num mesmo corpo. “Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu, e alimenta-se de maçãs, entre os lírios”.

- As últimas palavras de Lilith!

- Tudo indica que a “filha da estrada” não as escreveu para Adão, mas sim para Deus. Ela estava angustiada de desejo, fruto de um amor desvairado. O Demónio do Meio-Dia matou-a por ter um dia estado em vão eternamente à espera.

- Mas não foi por causa de ser o guardião do planeta Marte, a quem Lilith sugou a atmosfera para alimentar as filhas? – Perguntou Miguel.

- E não achas estranho sugar toda uma atmosfera de um planeta para alimentar seis filhas?

- Mas não eram uns bebés quaisquer, eram as filhas de Adão.

- As filhas de Adão nunca mereceriam tal sacrifício! – Disse o Espírito Livre olhando de novo para o horizonte.

- Então, eram de quem? – Perguntou Miguel, olhando de frente para o seu companheiro de viagem.

- Eu sei em quem estás a pensar, mas esquece e contempla a mais melancólica das paisagens.

De repente um dos milhões de pontos que salpicavam o horizonte evoluiu em linha reta e num ápice apareceu em frente da nave, dando como primeira impressão que algo de diferente estava a acontecer.

- Eis os Piratas de Plutão, personagens de enorme complexidade, que têm tudo para conquistar meio Universo, mas não querem, e é por isso que a outra parte está sempre nervosa, – disse o Espírito Livre com clareza e sabedoria. – Se eles um dia decidirem manipular as bandas magnéticas, todos desaparecerão num só golpe, porque são espíritos versados na manipulação das ideias. E eles não têm qualquer resquício da noção de limite.

Quando a lenda de que Plutão tinha os seus piratas se tornou realidade, Laputa teve o bom-senso de mandar publicá-la. Lá fora tudo estava suave e pacífico, sem violências e fantasmas. O que estariam a pensar aquelas mentes maléficas, que os observavam minuciosamente de dentro das suas naves?

- São as criaturas mais equilibradas que conheço, com uma certa tenacidade que roça o heroísmo e a loucura. São uns bons porteiros de Laputa.

Estavam todos num diálogo silencioso que, segundo o Espírito Livre, só era passível ser de amor, nunca de ódio. Explicou que era uma falsa ideia pensar que em Deus só se encontrava felicidade, porque Ele também dava por vezes infelicidade, e sabia disso, mas tudo era necessário para alcançar a utopia. Uma única cintilação de luz num cristal de gelo preso à nave mais próxima, fez sorrir o Espírito Livre.

- Sinto a presença penetrante e destemida de Lilith e eles também a detetaram. A Anja Suprema está em toda a parte e em parte nenhuma, – disse o companheiro de Miguel com uma voz escurecida.

- Já puseste a hipótese de Deus ser uma mulher?

- Eles vão enviar um delegado para investigar. Sentiram a presença dela e querem lavar-nos a alma.

- “Lavar-nos a alma”?!

- Laputa quer Lilith e para ela renascer é preciso encontrar as suas “ideias”. A ordem de Deus está em todo o lado e os seus agentes procuram as “partes” da senhora, que estão em movimento e em constante mutação. Os piratas são exímios navegadores, conhecem como ninguém os mares do pensamento, que representam o espaço interior do mundo que está em todos os seres do Universo. Podem levar-te a memórias vividas, mas incorretas, e eles podem não ser o que tu vês.

- O Universo exterior é onde nós habitamos, mas nós próprios, o nosso corpo, é a parte interior desse mesmo Universo, com outros seres e a mesma dinâmica, - exclamou Miguel, tentando compreender o que o Espírito Livre dizia.

- Isso mesmo, e a dinâmica é dada pelas “ideias”. Um facto que distingue Plutão dos outros planetas é que os seres que sempre o habitaram nunca cometeram o “pecado original”. Cometeram outros, mas este não e é por isso que são uma das portas de entrada do Reino de Deus, Laputa. O único ponto habitável é a cidade de Scarpia, que esteve outrora transformada num caos de violência, após uma série de invasões e ocupações. Lilith partilhou o seu assombro com Deus e Ele deu-lhe em mãos a heróica missão de restaurar a ordem nesta porta de entrada para a Sua casa. Encontrou as pessoas certas nos confins do Universo, no seu lado mais negro, e trouxe-os para Plutão. A relação entre eles foi tão intensa que estes seres catalogados como os “mais maus dos maus”, acabaram verdadeiramente por chamar a Lilith a “sua anja”. Em poucos dias restauraram a ordem e só restou Scarpia. Eles obtiveram o estatuto do paradigma absoluto, porque a aventura levou-os a fazer a transição entre o Mal e o Bem, e tudo por amor a Lilith.

- Deus escreve direito por linhas tortas!  

- É preciso ter cuidado com as palavras de Deus recitadas pelos homens, pois elas falam muito sobre quem diz do que sobre Deus. Querem mandar em Deus. No último banco ia um senhor vestido de azul, o Etelvino, cuja irmã tinha prometido aos céus que ele iria a pá até Fátima se sobrevivesse à guerra. Quando regressou ela contou-lhe a promessa e insistiu que a cumprisse, mesmo que não fosse religioso. Morreu em Sacavém atropelado quando se dirigia para Fátima. Se a maior parte dos homens fossem Deus, comportavam-se como o Diabo!

 

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