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Burocracia na Morte

“O conhecimento da Hora só a Deus pertence, só Deus a fará surgir quando tiver de surgir. Ela será penosa nos céus e na terra e surpreender-vos-ás de um momento para o outro.” Maomé

“O conhecimento da Hora só a Deus pertence, só Deus a fará surgir quando tiver de surgir. Ela será penosa nos céus e na terra e surpreender-vos-ás de um momento para o outro.” Maomé

Burocracia na Morte

02
Fev26

172 - O Bisneto do Padre Joaquim - Dia 4 - 21 de novembro de 1949 (segunda-feira) - Despedidas

Narciso Baeta

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- Há uma coisa de que tenho a certeza, voltaremos a encontrar-nos. Boa-noite pai!

Miguel viu, repentinamente, num local muito escuro, uma estrada que o levava em direção a vários ciprestes, sentinelas de um outro mundo, e quando se aproximou de um portão, que estava aberto, leu “Cemitério do Prado do Repouso”. Ouviu o som de um carro a aproximar-se, os faróis a rasgarem a noite, e os archotes de quatro homens que acompanhavam o veículo. Quando passaram por ele, viu o avô à janela e disse-lhe “adeus”. O dr. Mário de Miranda olhou fixamente para o desconhecido e tocou no motorista.

- Mário, porque é que mandaste parar? – Perguntou Maria da Glória, olhando chorosa para o marido.

- Tenho de ir falar com aquele senhor, continuem que eu já vou lá ter.

A acompanhar o carro estava o pai e os tios.

- Obrigado por vires, Miguel, - disse o avô abraçando o neto. – Chegou o fim do nosso sonho, - e deu-lhe um beijo perante o olhar incrédulo dos acompanhantes.

Dirigiu-se para os filhos, pôs o braço por cima do Jorginho e desapareceu na noite escura e gélida daquele mês de janeiro no Porto.

Miguel acordou repentinamente ao som de um despertador estridente do chinês, uma opção do telemóvel. Leu 8 de janeiro de 2024. Levantou-se calmamente para que a pressão sanguínea não baixasse, deu um gole na garrafa de água que estava no chão junto à cama, e sentiu-se confuso com o sonho que  tivera. Levantou-se, agarrou no livro que estivera a ler na noite anterior, e nos óculos de leitura, ambos junto à garrafa e dirigiu-se à sala para os deixar em cima da secretária. No teclado do portátil estavam as folhas manuscritas do avô com os poemas que escrevera com raiva após a morte do seu filho António. Releu-as!

Filho Renascido

Cobriu-se-me de luz a escura noite

Por onde a frágil vida me levava;

Por ele venturoso caminhava

Dos meus entre o amor e o espanto

 

Ao meu filho querido eu já o via

No meio do regresso que sonhava! …

Os átomos duram eternamente

Longa noite fria em curta manhã de sol

 

Como relíquia nesta solidão

À espera na alma o novo beijo

Os seus átomos formaram-no noutro lugar

O olá supremo o novo lampejo

E chamo: - António! Filho! … Esperançoso

Ansioso o vou buscar ao meu neto

Mário Miranda acordou junto ao seu filho António neste dia frio de 8 de janeiro de 1943 e viu várias caixas de remédios na mesa de cabeceira:

- Clindamicina 300 mg e Brufen 400 mg???

Sempre que uma pessoa morre deixa um espaço com uma porta de saída, que é também uma porta de entrada, mas esta só alguns sabem utilizar. Perderam toda a memória de tudo o que aconteceu durante a permanência no ciclo, a auto consistência do Universo devolvia sempre o tempo às suas condições iniciais. O “Paradoxo do Avô” não passava de um mito! A pessoa que regressa já não é a mesma. Por isso nunca se regressa. O Universo é um todo atemporal onde o passado, o presente e o futuro coexistem.

21
Jan26

171 - O Bisneto do Padre Joaquim - Dia 4 - 21 de novembro de 1949 (segunda - feira) - Barba e Cabelo

Narciso Baeta

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- Queres ir à cidade?

- Claro avô, tenho muita curiosidade em andar no famoso Ford Gordini.

- Famoso?

- O meu pai falou nele várias vezes.

- No teu tempo os carros já voam?

- Ainda não, mas não falta muito. No concelho onde vivo o presidente da câmara já vai construir um edifício para os estacionar. São táxis drones!

- Táxis drones?

- Veículos pilotados automaticamente para transporte público. Mas a moda agora são carros elétricos.

-  Carros elétricos? Sem precisarem de gasolina?

- Sim!

- A eletricidade ainda não chegou aqui!

- A avó irá pagar o ramal em 1969 para haver eletricidade na Quinta de Palmazões.

- 1969? Daqui a vinte anos? Meu Deus! Vamos lá à Barbearia Central.

Entraram num carro preto de quatro portas, o avô rodou a chave e o motor começou a roncar.

- Parece o Dakota onde o meu pai teve de fazer as horas de voo na Ilha Terceira quando era comandante da zona aérea dos Açores.

- Muito me contas sobre o Jorge, vai longe na carreira.

O trajeto da estrada até Amarante era parecido com o do tempo do Miguel, mas em terra batida cheia de buracos, em vez de alcatrão, e com muitos peões a deslocarem-se nas bermas, e carroças de bois a circularem na via. O barulho da buzina foi uma constante, as pessoas paravam para cumprimentarem o “senhor doutor” tirando o chapéu. Até lá cruzaram-se unicamente com três automóveis, e a viajem demorou quarenta e cinco minutos. O hóspede aproveitou para filmar a aventura. Pararam no largo Conselheiro António Cândido.

- Esta estátua continua no mesmo lugar, - disse o Miguel.

- Dei o mesmo nome ao teu tio, Deus o tenha!

- Li um manuscrito com o título de “Águia do Marão” escrito pelo avô.

- Sabes quem é que deu esse nome ao conselheiro?

- Não!

- O Camilo Castelo Branco. E os jornais chamavam-lhe o “Boca d’ Oiro”.

- Vamos tirar uma selfie com o “Boca d’Oiro”!

A cena de dois homens de idade não passou despercebida aos olhares dos curiosos, era estranho aquele ritual com duas pessoas de costas para uma estátua, um desconhecido de cabelo grisalho e o “senhor doutor”, um homem com uma barba hirsuta pouco cuidada, capote com nódoas, botões de colarinho desbotados, de olhar doce e melancólico, que revelava fadiga, ambos a olharem para um espelho na mão do primeiro, com o braço em extensão acimas das caras.

- Isto tudo é uma loucura Miguel, e há de acabar um dia!

Quando se dirigiam para a “Barbearia Central” foram abordados por um homem bem-posto, camisa branca, fato e gravata de riscas brancas oblíquas, olhos claros, risco ao meio, 1,66m, com uma capa aos ombros.

- Bom dia senhor Doutor, desculpe incomodá-lo, mas não sei a quem mais recorrer.

- És o filho da Guilhermina da Toca Comprida?

- Sim senhor doutor, sou o Prudêncio.

- Irmão do Jacinto que morreu na epidemia da febre tifoide na Teixeira. A tua mãe como está?

- Sente-se fraca, mas não consegue um atestado para uma consulta gratuita. Pensei que o senhor Doutor como Subdelegado de Saúde conseguisse ajudá-la.

- Prudêncio tu sabes que é o presidente da Junta que passa os atestados de pobreza, ele é que vos conhece.

- Eu sei, mas quando vi o Joaquim Fernandes com um, ia-me passando, ele é um capitalista, tem tantos porcos.

- Essa é que é a doença do país, a aldrabice e a cunha. O presidente deve ter a casa cheia de presuntos. Vou ver o que posso fazer por ti, conheço as vossas dificuldades, que se agravaram com a morte do teu pai.

Quando entraram na barbearia a porta fez tocar um sino, Miguel ouviu o som das tesouras e navalhas, misturadas com o burburinho de conversas animadas e risadas dos clientes. Ali a barba fazia-se a pincél, creme e navalha, ao som fanhoso de uma telefonia. Sentiu o aroma a sabão de barbear e a loções que não conseguiu identificar. As prateleiras estavam repletas de produtos, desde cremes e pós, até pentes requintados.

- Boa tarde meus senhores, - cumprimentou o dr. Mário de Miranda, que parecia estar sempre com pressa, tirando um relógio que estava arrumado no bolso do casaco, preso por uma corrente, vendo as horas. - São10 horas e 45 minutos!

Miguel confirmou no telemóvel. Tinha uma intuição especial para fixar instantes únicos do fluxo da vida quotidiana. O senhor Amadeu cumprimentou gentilmente o cliente, chamou-o com um gesto, rodou a cadeira, e este sentou-se, sendo de imediato protegido por um babete para adultos. A cadeira foi reclinada, um pincél distribuiu a espuma pelo maxilar inferior, o cliente fechou os olhos e a navalha encontrou a barba através da lenta rouquidão do corte. Quem diria que às vezes o encostar de uma navalha ao pescoço de alguém, o relaxava. Miguel encostou-se a um canto e observou com deleite o ambiente. Riu-se quando ouviu o ronco do avô. Quem diria que aquele senhor participara em 1917 e 18 em combates em Moçambique contra o invasor alemão que viera da região de Tanganica. Em tempos de paz escrevera um extenso relatório sobre a doença do sono, e a distribuição do seu vetor, a mosca Tsé-Tsé, tendo para isso percorrido uma área com uma extensão de mil quilómetros. Num sofá vermelho desbotado e gretado, um cliente de fato escuro e chapéu poisado no colo, que lia atentamente um jornal, comentou em voz alta:

- Os lampiões deram 4-3 ao Torino, e depois foi a desgraça.

- Foi o destino para os jogadores italianos, - disse outro.

- Aqui estamos vivos, e podemos morrer lá fora atropelados por essas engenhocas, que não se afastam de nós como os cavalos, - exclamou outro.

- Com estas estradas andam mais devagar que os bichos, - interveio o dr. Mário de Miranda, abrindo os olhos.

- Mas só os ricos é que os podem ter, - exclamou o leitor.

- Eu não sou rico, farto-me de trabalhar no consultório e na quinta, e gasto o dinheiro na educação dos meus filhos e não na taberna.

- Dizem que a Santa Casa de Baião tem muito dinheiro, que vai para os bolsos de alguns! – Provocou alguém dum dos cantos.

O cliente levantou-se furioso, agarrou na bengala, mas foi travado:

- Calma avô, não vê que o estão a provocar?

- São uns ignorantes, têm inveja de tudo, fartei-me de trabalhar de borla para montar a Santa Casa e o Hospital de Baião, e é assim que me agradecem. Podia ter-me dedicado à medicina privada e aí sim, estava rico.

- Não se arrependa, um dia haverá uma estátua sua na região a agradecer-lhe eternamente o gesto.

- Avô? Um velho a chamar avô a outro, e nós é que bebemos? – Investiu o provocador.

A notícia do desastre do avião Fiat-G212 contra uma parede da Basílica de Superga, no dia 4 de maio, com 31 pessoas a bordo, 18 delas jogadores do Torino, após um jogo amigável com o Benfica em Lisboa, em homenagem ao Ferreira que ia pendurar as botas, acabara de chegar a Amarante, à Barbearia Central.

- E comparam aqui o capitão do Benfica ao Severino Varela! – Exclamou outro, tentando resfriar os ânimos.

- O do Boca Juniores, o que jogava com boina?

- O “La Boina Fantasma” esse mesmo, que marcou um golo fabuloso ao River Plate.

- No Estádio Monumental de Nuñez, - interrompeu o Miguel, mostrando à assistência o filme no Youtube, onde Severino voava e desviava a bola, que todos pensavam que já tinha saído pela linha de fundo, para dentro da baliza adversária, no dia 26 de setembro de 1943.  

Um silêncio sepulcral abateu-se sobre o espaço, todos olhavam para o estranho aparelho, onde se jogava misteriosamente à bola, e alguns afastaram-se com medo.

- Vamos embora Miguel, - disse o avô puxando-o pelo braço.

Riram-se!

- Eles estavam a merecer, agora vão-se benzer o resto do dia, e se contarem a cena vão chamar-lhes bêbados.

- São sempre os mesmos estes indígenas, até quando o teu pai passa aqui de avião há falatório a dizer mal. Acho que ele faz muitas vezes de propósito. Amanhã queria ir ao Porto, mas vai chover! Tenho pena do provocador, está na miséria. Era relojoeiro até a visão o trair e o filho enlouquecer, e ter ido para o Manicómio Bombarda. Teve doze filhos, sobram-lhe quatro, a mulher morreu há muito, de ataque cardíaco.

Miguel olhou para o telemóvel e leu que previsões de bom tempo para o dia seguinte.

- Avô, amanhã não chove!

- O Borda d’Água diz que sim.

- O Serviço Meteorológico Nacional dá céu limpo

- Veremos, qual deles está certo.      

- Um satélite ou um agueiro.

Riram-se!

11
Jan26

170 - O Bisneto do Padre Joaquim - Dia 4 - 21 de novembro de 1949 (segunda-feira) - Na Cama do Massena

Narciso Baeta

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Miguel tocou na porta do quarto do tio Fernando e esperou.

- Tio, posso entrar? – Perguntou, após algum tempo de espera e alguma insistência.

Rodou a maçaneta e ela abriu-se.

- Posso? – Insistiu.

Nada, o quarto estava vazio. Uma folha manuscrita sobre a cama chamou-lhe a atenção. Era uma carta dirigida ao sobrinho Miguel, para ser lida no futuro, quando alguém a encontrasse algures na biblioteca. O afilhado sentou-se na cama e quando se preparava para a ler, começou a ouvir uma sinfonia caótica de gritos raivosos em francês e em português, misturados com tiros, que desencadearam um turbilhão de emoções dentro dele, viu-se no cimo de uma colina verdejante, sentiu o vento de uma turbe de civis que se lançava com uma ferocidade agressiva, e sagrada, sobre um grupo de inimigos com fardas esfarrapadas, que tinham acabado de sair de uma curva, e ouviu o barulho de dentes de metal a penetrar na carne de um deles.

- Menos um, ó Maneta! – Gritou alguém em português.

- Au revoir maman, je vais mourir! – Retorquiu o soldado agarrando-se ao cabo da forquilha.

Mas um puxão rápido do português separou-os, e ele partiu rapidamente de encontro a outro. Os portugueses, alimentados por um ódio inabalável aos invasores, avançavam com uma coragem inegável.

- A cama do Massena! – Exclamou Miguel, rindo-se.

Lembrou-se da estória da cama onde o general francês dormira na noite em que acampara com o seu exército na margem do rio Ovelha, numa das extremas da Quinta de Palmazões, em Padronelo. Mais tarde o Miguel descobriu, numa das idas à casa das batatas com o pai, três bacamartes enferrujados escondidos atrás de uma porta, que o pai recuperou e pendurou na entrada da casa de Paço de Arcos.

- Agostinho, ajuda-me, - pediu alguém.

- Estou a caminho Claudemiro, - respondeu um vulto, saindo de trás de uma árvore.

-  Agostinho Clemente de Miranda?

- Quem me chama? – Perguntou a figura imponente, com uns olhos ardentes de paixão pela liberdade, como se a própria vida dependesse disso, parando e olhando para todos os lados.

Mas foi por poucos segundos, o tetravô paterno do Miguel correu de novo em direção ao amigo, e o viajante do tempo olhou para o telemóvel e viu a data, 10 de fevereiro de 1809. Começou a filmar. Agostinho Clemente de Miranda tinha umas feições marcadas pela determinação, a sua atitude misturava coragem e a cautela de quem já conhecia os meandros da zona que agora se transformava em campo de batalha. Na curva da estrada surgiu um francês que se destacava pelo uniforme impecável e a confiança de quem foi treinado para a guerra, dando passos calculados com a precisão de um soldado disciplinado, com uma expressão que misturava determinação e dever, refletindo a lealdade ao seu exército e à causa que o trouxera para aquelas terras desconhecidas. Miguel riu-se sem parar, o francês era a alma gémea do senhor Manuel, o jardineiro da casa dos pais.

- Cuidado Agostinho, - gritou.

A lâmina da espada do inimigo rasou a cabeça do familiar, que teve tempo para se virar com uma destreza de um felino, enterrando as quatro pontas afiadas no tronco do atacante.

- Morre francês, Quintela nunca será vossa, nunca tocarão na minha Eva!

Miguel ainda viu o pai e o avô materno Mene deitados na cama do tio Fernando, a pedido deste, que registou para memória futura os nomes dos generais que se tinham deitado ali.

- Estás à minha procura? – Interrompeu o tio irrompendo pelo quarto.

- Nem imagina onde estive, - exclamou o Miguel levantando-se e olhando para o telemóvel, que indicava o dia 21 de novembro de 1949, segunda-feira.

- Aposto que viajaste!

- Estive em Quintela a ver o Agostinho Clemente de Miranda a enfrentar as tropas francesas.

- Diziam que era um lutador duro!

- Gritou pelo nome Eva enquanto matava o francês.

- Eva Maria Luiza da Fonseca, a prima com quem se casou no dia 30 de agosto de 1807.

- Quase ia morrendo, se eu não o tivesse avisado, nós provavelmente não existiríamos. Olhe!

E o hóspede mostrou ao engenheiro Fernando Miranda o filme do telemóvel.

28
Dez25

169 - O Bisneto do Padre Joaquim - Dia 4 - 21 de novembro de 1949 (segunda-feira) - Visita Aérea

Narciso Baeta

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- Rápido lá para fora, o teu pai vem aí, - gritou o avô Mário de Miranda agarrando na mão do neto e puxando-o para o pátio da entrada.

Miguel correu para o exterior e foram para junto da avó Maria da Glória que acenava com um lenço branco na mão. Nem teve tempo de olhar para cima, o barulho ensurdecedor de um Hurricane a rasar as copas das árvores e a provocar uma tempestade de folhas e pó fez o Miguel rir de alegria, tentando tocar no avião, ao mesmo tempo que o avô acenava com os braços e a avó punha as mãos na cabeça. Conseguiu ver o Jorge a rir-se através da carlinga aberta e reparou que lançou um papel que esvoaçou até cair no campo de milho. O sol estava alto e quente, o ar poeirento provocava um cheiro intenso a terra revolvida.

- Mário tens de lhe dizer para não passar tão baixo, assusta-me tanto, - disse Maria da Glória entrelaçando o braço no do marido, ao mesmo tempo que viam o avião precipitar-se para uma nuvem nas alturas e desaparecer.

- Estou farto de queixar-me nas cartas que escrevo, mas tens de compreender que é um jovem com sangue nas guelras.

- Mas é meu filho e não quero perder mais nenhum, já bastou o António.

O neto aproximou-se dos avós, abraçou-os e exclamou:

- Não se preocupem, nunca irá acontecer nada, a vida do meu pai irá ser longa, e será feliz.

Pela primeira vez Maria da Glória não se afastou do intruso, olhou para ele, sorriu e fez-lhe uma festa na cara:

- Se tu o dizes, eu acredito, - retorquiu.

Foram interrompidos pelos gritos duma das criadas que acabara de sair do campo de milho:

- Minha senhora o menino deixou-lhe uma carta – e acenou com ela no ar.

 

“… que tenhas sorte e sejas feliz é o nosso maior desejo. Que a padroeira dos aviadores te seja propícia” – Mário de Miranda, Baião 29/02/1948.

“Não desças, há arvoredo e o terreno é acidentado. Além disso o indígena assusta-se e comenta. Por exemplo, que a mãe te disse adeus muito alto e que lhe deitaste uma carta. E afirmam que foi certo. Bem, mas isto não importa. Todavia a descida é ou pode ser perigosa para ti. E isso importa e muito.” – Mário Miranda, Baião, 23/11/1948.

“As tuas visitas aéreas têm sido devidamente apreciadas. O voo mais perfeito, porém, pareceu que foi aquele em que vieram dois aviões: serenidade, comando, distâncias guardadas como que marcadas por uma régua. E, também, altura razoável.” – Mário de Miranda, Baião, 7/12/1948.

“Cá recebemos a tua visita e dum teu colega, decerto, há uns oito dias. Estava eu, e o Fernando comigo, e o resto do pessoal em Palmazões. Por cá frio bastante. Apreciamos sobretudo o facto de não teres descido muito aqui por cima das árvores.” – Mário de Miranda Baião, 14/1/1949.

“Estava sentado à secretária a escrever a várias pessoas, entre elas a ti e aos teus irmãos, quando ouvi o ruído do motor de avião que me pareceu ser dos Hurricanes em que costumas voar. Efetivamente, interrompendo o meu trabalho e saindo de casa, verifiquei não me enganar. A mãe e a avó também suspeitaram e saíram para verem o aparelho. Eu acenei com o braço e com o chapéu e a mãe com um pano branco. Vimos os movimentos do teu braço. Na 3ª volta pareceu-nos que desceste muito perto dos pinheiros. Isso está fora da tua promessa.” – Mário de Miranda, Baião, 22-2-1949.

“Há dias recebemos, a mãe em Palmazões e eu aqui, a tua visita aérea. Devo prevenir-te de que à tardinha fui encontrar a mãe doente porque lhe deixaste a impressão de que voaste a baixa altura. Deves poupa-la a essas impressões fortes porque lhe dão como resultado dores de cabeça e falta de apetite. Há muitas árvores e teem-lhe dito, creio mesmo que tu também, que são perigosos os voos feitos nessas condições.” – Mário de Miranda, Baião, 11-10-1949.

 O médico aproximou-se do hóspede pôs-lhe o braço nos ombros:  

- Meu querido neto, eu vivo cada dia que me for concedido, mas tu podes partir, tens escolhas, podes viver em qualquer mundo.

- O avô está a falar com uma pessoa que está para vir, mas que nunca conhecerá.

- Nunca conhecerei? Não te vou conhecer? Queres dizer que vou morrer antes de nasceres?

Miguel apercebeu-se do erro, era complicado olhar pela porta do tempo, ver pessoas do passado e não lhes poder falar do futuro, ou ser prudente não o fazer, pois poderia ele próprio pôr em risco a sua própria existência. Estava confuso, o avô sabia ou não da sua situação?

- Gostava de saber qual será o futuro dos meus filhos, ainda preciso de continuar a trabalhar para eles, as despesas são grandes.

 “Queria melhorar porque preciso ainda de trabalhar para os teus irmãos”. – Mário de Miranda, Palmazões, 03/05/1950, última carta para o filho Jorge.

23
Dez25

168 - O Bisneto do Padre Joaquim - Dia 3 - 20 de novembro de 1949 (domingo) - A Avozinha

Narciso Baeta

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Miguel estava sentado junto à lareira com o tio Fernando ao seu lado, ambos a verem fotografias guardadas numa caixa, quando ouviu o “Ford Bébé” do avô a chegar. Parou junto à porta principal e viu um vulto vestido de negro a sair do automóvel, com a ajuda dos avós e a subir lentamente as escadas. O soalho rangeu e Maria da Glória anunciou, com uma voz alta:

- Rapazes vejam quem chegou e vai passar uma temporada connosco!

- Avozinha – disse o Victor Hugo correndo para a senhora.

Maria da Purificação era mãe da avó, e após uma consulta rápida ao pdf da família Miranda, da autoria do Miguel, era viúva do Rodrigo Brochado desde 1939, e iria falecer na Casa da Barroca no dia 11 de fevereiro de 1958, com 76 anos.

- Mãe este é o senhor Miguel um amigo do Mário que é nosso hóspede por uns dias, espero eu.

- É filho do Jorge – interveio de novo o tio Victor.

Dois dos rapazes riram-se, Miguel reparou que o tio Mário Augusto não expressou alguma reação. Ficou impávido e sereno.

- Filho do Jorginho? – Indignou-se Maria da Purificação.

- Disparate mãezinha depois contou-te as novidades, estes dias têm sido uma loucura.

A senhora sentou-se à mesa e tirou dum prato uma castanha pilada.

- Estão muito boas Glórinha, as da tua irmã Isaura são muito duras dão-me cabo dos dentes.

- Pus em água de manhã.  

Alguém bateu na porta principal e ouviu-se o barulho de um ferrolho a abrir.

-São os tios – informou Maria da Glória.

- Boa tarde Dona Dulce e senhor Amador – cumprimentou a criada.

- Olá Adelaide como é que estás?

- Vou andando, minha senhora.

- Soube do teu irmão Agostinho que se viu aflito com a varíola.

- Graças a Deus curou-se …

- … a Deus não, ao senhor Dr. Mário de Miranda, que fez mais um trabalho exemplar, como na epidemia de febre Tifoide que levou a tua irmã Rosa …

- … que Deus a tenha – e benzeu-se.

- Vocês eram doze irmãos?

- Sim, minha senhora. Restamos quatro!

- Bem-vindos mais uma vez cunhados, - interrompeu a dona da casa. – Esta ciática vai-me matando. Estava a ver que não conseguia subir as escadas.

- A Maria da Glória devia ter ficado lá em baixo, a Adelaide levava-nos lá.

- Viemos despedirmo-nos, vamos passar uns dias ao Vidago.

- Ainda bem que vieram, tenho cá a mãezinha que tem perguntado muitas vezes à Isaura por vocês.

- Olá madrinha – disse o Mário Augusto dando um beijinho rápido na tia paterna Dulce Augusta de Miranda.

- Estás um rapagão tão bonito. Dezassete anos, como cresceste. Parabéns, sei que dispensaste dos exames orais de admissão à faculdade.

- Treze valores, é um menino muito aplicado, lá conseguiu superar as dificuldades no latim e no inglês, - elogiou a mãe.

Mário Augusto limitou-se a fazer um pequeno sorriso de ocasião.

- Toma rapaz, trouxe-te um presente.

Mário Augusto recebeu o embrulho e escondeu-o atrás das costas.

- Abre filho, a tia quer saber se gostas.

Descruzou os braços, puxou-os para a frente e desembrulhou o pacote. Era uma caneta azul.

- Outra Parker? – Exclamou Maria da Glória. A cunhada anda a gastar muito dinheiro com eles, pode fazer-lhe falta.

- Eu tenho e eles merecem. O meu irmão Mário, está em Baião?

- Não, está é surdo desde que apanhou a gripe. Encontra-se na biblioteca, já o chamei, mas não ouviu.

Riram-se e desceram para a sala.

O batizado de Mário Augusto ocorrera no dia 17 de abril de 1933, na igreja de Padronelo, e os padrinhos tinham sido o tio paterno Augusto Adelino de Miranda e a tia Dulce, que fora representada por procuração, por estar no Brasil, pelo irmão Aflalo, que nascera quando o bisavô paterno do Miguel fizera 55 anos.

- O teu Jorge fez-me uma visita lá em cima, a população veio toda para a rua, e ficaram enfeitiçados com as manobras do avião.

- Fico sempre muito ralada quando ele aparece, corre muitos riscos.

- Olá mana – cumprimentou o dr. Mário de Miranda irrompendo pela divisão.

Atrás dele entrou o filho Fernando e o neto Miguel.

- Este senhor ainda está aqui? – Perguntou a Dulce, baixinho, junto ao ouvido da cunhada.

- Infelizmente, o Mário continua a acreditar que é o neto vindo do futuro…

- … do Inferno …

- … e só tem dito disparates. Imagina que agora convenceu-o que vai ressuscitar o António.

- Meu Deus, não merecias este tormento.

- Quando estivermos sozinhas conto-te mais!

O hóspede parou a meio da sala e cumprimentou as visitas, que lhe responderam com desdenho.

- O Amador está muito caladinho, - notou a Maria da Glória.

- Tem uma dor de cabeça muito forte, e os remédios não fazem nada.

- Mário, ainda tens aqueles comprimidos milagrosos?

- Os do Miguel?

- Agora o hóspede também médico? – Indignou-se a tia Dulce.

- Tirou-me a dor da ciática.

- Mas disseste-me que estás com dores?

- Não tomei mais, mas que me fez bem na altura, fez. Mário, eu também tomo um.

- Eu tomo qualquer coisa que me tire as dores, - desabafou o Amador.

- Tens dois? – Perguntou Mário Miranda ao neto, um ano mais velho do que ele.

- Aqui estão, - respondeu Miguel, tirando dois comprimidos “Algimate” do bolso esquerdo traseiro das calças de ganga.

- Não será veneno? Exaltou-se a visita.

- Dulce, por favor? – Respondeu o irmão.

- Avô, deixe estar, eu compreendo as dúvidas da tia Dulce, - disse Miguel pondo a mão esquerda no ombro direito do avô.

Tia? Eu não sou sua tia, caro senhor!

O tio Amador tomou, sem hesitação, o comprimido, após ter sido ajudado pela cunhada a tira-lo da prata, e a mostrá-lo à Dulce Augusta, antes de o engolir com a ajuda do chá.

Miguel despediu-se e regressou à biblioteca, para ler as mensagens de WhatsApp que iam estranhamento chegando. O pensamento do avô estava distante dos convidados, Mário de Miranda imaginava a possibilidade de reativar um mecanismo de rejuvenescimento das células, e bastava uma, na campa do seu filho António haveria material necessário para inverter o processo, para o ressuscitar, como acontecera a Lázaro. Com a visita do neto, o avô tivera a impressão de começar a sentir uma harmonia entre o seu ser interior e o Universo. Estavam num espaço e temporalidade próprios, onde se cruzavam os dois mundos, o presente e o passado, só visíveis através dos pensamentos dos intervenientes, unidos pela essência invisível do Universo, a poeira inteligente. Mas não ficou muito tempo sozinho:

- E se utilizaste uma máquina para chegar até aqui, uma espécie de nave do tempo? Perguntou o avô entrando, mais uma vez, de rompante, e continuou. - Podes recuar e levar os remédios que salvariam o António. O “Algimate” tem tirado muitas dores aqui por casa, o teu tio Amador está aliviado.

- Mas que máquina???

- Talvez essa, - e apontou para o telemóvel.

- Isto é um telefone, faz o mesmo que o dos correios onde costuma ir falar com o meu pai.

- Tenta telefonar para alguém, à tua mulher.

Telefonar para o futuro? Nunca lhe tinha ocorrido essa possibilidade. E se atendessem? O que é que diria? “Estou a falar de Palmazões … em 1949, tenho aqui o meu avô, que nunca conheci, estive com o meu pai,…”? Mas era um facto que recebia as notificações das mensagens do “WhatsApp”! Foi com relutância, e medo, que procurou o ícone do “telefone”, escolheu a opção “recentes” e ligou à “Aninhas”, a sua mulher. Por breves segundos o silêncio tomou conta do espaço, até que o sinal de chamada se tornou audível.

- Diz? - Atendeu a Ana Miranda.

12
Dez25

167 - O Bisneto do Padre Joaquim - Dia 3 - 20 de novembro de 1949 (domingo) - O Castanheiro

Narciso Baeta

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- Isto é verdade? – Perguntou o Fernando com o olhar de frente e com a mão esquerda dentro do bolso, virando o écran do telemóvel para o Miguel.

O hóspede nem queria acreditar, o tio não se limitara a jogar o Tetris, tinha ido ao calendário onde o sobrinho assentava alguns factos, passados e presentes, relacionados com a família, para depois os divulgar no grupo do WhatsApp da “Família Miranda”. Leu:

“Tio Mário suicidou-se no dia 6 de setembro de 1967, às 10H30, no Hospital de Santa Maria de “fratura do crânio com laceração de encéfalo. Faz hoje 56 anos”.

Já era médico, como o pai, e apercebendo-se da sua situação, pediu ajuda a um colega do Hospital Júlio de Matos, que o internou num primeiro andar, sem grades. O relato deste facto foi feito pela Adelaide, a fiel criada de Maria da Glória que sabia dar injeções, o menino Mário ensinara-a, que a acompanhou em casa até ao fim, tendo por isso abdicado de vida familiar, sendo depois compensada pelo Jorge e pelo Victor, como forma de agradecimento à sua fidelidade e dedicação, e pela tia Fernanda, mulher do Víctor. Duas versões para um só incidente. Um estado psicótico tinha despoletado o salto através da janela, e a versão oficial teve de coloca-lo noutro cenário. Enfim, nada deveria ser alterado, dizia o bom senso.

Antes que tivesse de dar uma explicação pouco plausível, foram interrompidos pelo chamamento do dr. Mário de Miranda:

- Fernando, vamos começar a cortar o castanheiro.

O rapaz precipitou-se para o andar debaixo e saiu furioso pela porta da cozinha, indo no encalço do pai.

- Esse castanheiro foi plantado em memória do Gonçalo Cardoso, o primeiro proprietário desta quinta, no dia 2 de janeiro de 1611. Vai serrar uma árvore com mais de trezentos anos.

- Tu vives no mundo da Lua, é com a madeira dela que vou continuar a pagar os estudos dos teus irmãos, e ajudar-te nas viagens que planeias fazer.

Miguel reparou que o tio Fernando contava as pedras do caminho à medida que seguia o pai, esfregava a cabeça, ficando cada vez mais despenteado, num intenso diálogo interior, discutindo com outra pessoa que se instalara dentro de si. Pararam junto ao chafariz velho, nome no ano 2023, uma represa no ribeiro do Alambique, a Poça do Redondo, nome de 1949, onde dois homens puxavam alternadamente uma serra comprida, que ia calmamente sacrificando a majestosa árvore. Mais afastado, e com uma corda na mão, amarrada estrategicamente no topo do castanheiro, para dirigir a queda, estava outro lenhador.

- Acha que aquele homem é suficientemente forte para conseguir puxar a árvore? Perguntou o Miguel ao avô.

- O Custódio é um touro, leva pipas sozinho para a adega.

Mas nem houve tempo para mais falas, contra todas as previsões, por ter parte da base já envelhecida, o castanheiro vingou-se e caiu desamparado para o lado do chafariz, só havendo tempo para o neto empurrar o avô. Todos fugiram, exceto o hóspede, que desapareceu no meio da copa.

- Miguel, Miguel, - gritou o médico, levantando-se e correndo para a árvore tombada.

O som foi tão alto que chegou aos campos vizinhos, o povo largou as ceifas dos milhos, correu de tamancos nos pés, passaram por relvas, ribeirinhos, malmequeres flores de trevo e mimosas em flor, sentindo o cheiro da terra e do pinheiral, ao mesmo tempo que os melros gritaram do alto dos choupos.

- Meu Deus, que desgraça, - reclamou uma voz feminina.

- Este hóspede do senhor doutor era muito esquisito, - retorquiu a Henriqueta Virgínia, caseira da quinta vizinha. – A Lurdes contou que não era deste tempo. Ouviu umas conversas estranhas entre ele e o senhor doutor, dizia que era filho do menino Jorgito.

- E Deus não permite coisas destas, - acrescentou a Emília do Crispiniano.

Miguel viu-se em frente de um senhor já com muita idade, sentado num cadeirão, com uma criança a correr à sua volta:

- Este miúdo é enfadonho.

Olhou para o telemóvel e leu 1934. Era o sogro do avô, Rodrigo Cardoso Brochado, 80 anos, e o rapaz o pai, com 8 anos.

- O petiz nasceu com bicho carpinteiro.

Na primária a Dona Clotilde, da Escola Pública de Campelo, teve dificuldade em ensinar-lhe a resolver problemas elementares de matemática, por isso recorreu muitas vezes ao tabefe. O pai do Miguel estava imparável, cavalgava a todo o vapor em volta do velho, que tentava pará-lo com a bengala, mas ele era esquivo. Miguel lembrou-se que também tinha tido dificuldades a matemática, e o pai também tentara resolver, sem usar os métodos da Clotilde, que o traumatizaram, recorrendo a saídas intempestivas do quarto, avisando que não o deixaria sair para brincar enquanto não acabasse com sucesso a tarefa. Nessas alturas o Miguel recorria a métodos radicais, dar murros na própria cabeça, tentando com isso estimular mais neurónios, e como não resultava, ameaçava Deus com o fim da parceria. Riu-se! Depressa passou para os anos noventa, e viu-se dentro do Citroen GS, com a mãe a dormir no lugar do morto, o pai a conduzir, rumo a Amarante, com destino à Quinta de Palmazões, no banco de trás iam dois leitões, os sobrinhos Guilherme e Mariana, em estado alucinado, distribuindo abrunhos ininterruptos na cabeça do avô Jorge, que respirava fundo, num esforço para manter a cabeça fria. Mas um calduço digno de um campeão, aviado pelo seu netinho de oiro, precipitou tudo. Os músculos do corpo contraíram-se em espasmos reativos, ficou ofegante e atingiu a exaustão. Incendiado pelo fogo do estaladão, o Jorge disparou o braço direito para o banco de trás, tentando meter os dentes para dentro ao prevaricador, trazendo o membro esquerdo no encalce do direito, e com ele o volante, embicando o Citroen para a berma, que começou a trepidar quando pisou o risco de segurança, acordando a Dona Lourdes que, sobressaltada, gritou:

- Mas que disparate é este Jorge?

- Não salte doutor Mário, não salte, - gritou alguém num quarto de Hospital, atrás de um paciente com um pijama branco com riscas azuis, que se dirigia para uma janela.

Miguel olhou para o telemóvel e viu que estava agora em 1967.

- Tio, tio, gritou, - correndo atrás dele.

Mas só conseguiu tocar nas calças do pijama quando o jovem médico já se precipitava no vazio. Ouviu o barulho seco dum corpo a bater no pavimento dum pátio. No exterior ainda ouviu as últimas palavras do moribundo, que olhava fixamente para ele:

- Tu? Aqui?

Estava agora numa casa de banho de um palacete arruinado, onde a mãe tentava desesperada encontrar algo para limpar, de novo, o rabo da pequena neta Mariana que despejara mais um inesperado cagalhão na altura em que utilizava o bidé. Embrulhou o dito numa toalha de linho e atirou-o para a banheira. A visita ao primo Afonso, também conhecido por Penas Podres”, que morava na Casa do Fundo da Vila em Quintela, não estava a correr de feição, os proprietários tinham recebido o general Jorge com uma decoração digna de um príncipe, mas os seus netinhos também tinham “bicho carpinteiro”, e insistiram numa luta de pão na altura do lanche, que fez com que a anfitriã agarrasse no bule de porcelana da trisavó e o levasse para um lugar seguro, ao mesmo tempo que lançava um grito de raiva:

- Chiça, deixa-mo tirar daqui antes que estes o partam!

- Tito, meu querido filho, toma, - disse uma mulher entregando uma cesta a um jovem rapaz.

- Mãe, eu já não sou uma criança, tenho 18 anos.

Estava no porto de Lisboa, e o telemóvel indicava o ano de 1918. Tito? Procurou informações no documento Word e:

- Tito Soares de Miranda! – leu em voz alta.

- Quem me chama? – Perguntou o rapaz voltando-se para trás.

Miguel levantou o braço, e sorriu para ele.

- Qual a vossa graça?

- Miguel, Miguel Miranda!

- Miguel Miranda? Não conheço!

- Também nunca ouvi falar de algum Miguel – reforçou a mãe, sem nunca largar o filho.

Albertina Augusta de Miranda nascida em 1880, irmã do avô Mário de Miranda, que se casou com Joaquim Soares Ribeiro, e teve cinco filhos, o Tito, mais velho, a Maria Célia, o Mário, o Júlio e a Maria. O pai era inspetor da Instrução Primária de Ovil, e muito violento para este filho, por isso ele estava em fuga para o Brasil.

- Boa viajem Tito, vai tudo correr bem. A tia não se preocupe, ele vai voltar.

- Tia?

Tito só regressou a Portugal depois da morte do pai, e em 1932 era comerciante no Rio de Janeiro e correspondia-se com o tio Dr. Mário de Miranda.

Miguel reparou que estava na escadaria de uma estação.

- Rossio!

Olhou para o telemóvel e leu 3 de agosto de 1945. Riu-se! Não foi preciso esperar muito até reconhecer o pai, um rapaz de 19 anos. Abordou-o quando o viu parar a meio da escadaria.

“Quando cheguei à estação do Rossio, de dia, teria de aguardar uma ou duas horas pela partida do comboio que me levaria a Sintra. Neste intervalo de tempo poderia sair e espreitar Lisboa. Mas, é uma vergonha dize-lo, não tive coragem. Ainda comecei a descer as escadas que me levariam à rua, mas … os lanços eram tantos que cheguei a meio e desisti. Sentia-me inseguro, fora do meu ambiente.” (Jorge, 2006)

- Cadete Jorge Miranda? – Perguntou.

Virou-se, e por alguns segundos ficaram a olhar um para o outro. O pai fez-lhe um olhar de alto a baixo, terminando num sorriso decisivo. Ouviram o som do vento a bater nas copas das árvores, e sentiram um reluzente sol de raios pontiagudos.

- Cadete? Ainda não sou nada. O senhor é da Base Aérea de Sintra?

- Irá ser, sim sou da base – inventou o filho. - Enviaram-me para lhe mostrar Lisboa nestas duas horas de espera pelo comboio que o levará ao destino.

- Qual a sua graça?

- Miguel Miranda, relações públicas da Quinta da Granja, - respondeu. – Vamos tomar um café à Pastelaria Suíça, uma oferta da base.

- Miranda? O mesmo apelido. Tenho de ir buscar a mala.

- Porque é que não a guardou no dispensário?

- Poupar dinheiro, não me posso dar a esses luxos.

“Perguntei para que lado era a Base e como se ia para lá. A pé ou de táxi. Escolhi a primeira modalidade uma vez que não podia dar-me ao luxo de pagar a segunda. A distância não era grande para um jovem na flor da idade habituado a andar a pé (uns 6 Km) não fora eu levar uma mala que tinha uma dimensão apreciável pois continha os pertences necessários para os dois meses e meio previstos de estadia.” (Jorge – 2006)

- Eu espero.

Apareceu algum tempo depois a arrastar uma enorme mala.

- Cuidado, ainda rebenta a pega!

“E ainda mal tinha percorrido as primeiras centenas de metros partiu-se-me a pega. Não tive outra solução senão pôr a mala às costas, e foi assim que franqueei o portão da Base Aérea da Granja do Marquês, em 3 de agosto, uma hora e meia depois.” (Jorge, 2006).

 O pai encheu o peito de ar e marchou, decidido, ao lado do filho que tinha os olhos rasos de água, queria dizer-lhe coisas proibidas pelo tempo. Miguel ajudou-o no transporte.  Na pastelaria havia um grande movimento, todos olharam para o filho do Jorge, vestido de uma maneira estranha, as calças de ganga ainda iriam demorar a aparecer. O pai envergava um fato escuro, camisa branca e gravata preta. Sentaram-se na esplanada

- “Loja das Meias”?

- Depois vamos lá ver as montras. Ainda compra umas meias de vidro para a sua namorada em Amarante – provocou Miguel.

- Não tenho dinheiro para esses luxos. Uma namorada sai caro!

- Não tem namorada?

- Não tenho tempo para namoros.

- Talvez daqui a seis anos conheça a filha de um comandante.

Riram-se! Miguel reparou na borbulha do pai no nariz e lembrou-se da carta que o avô lhe iria mandar daqui a três dias, em que referiria a sua preocupação com ela e com o gânglio do pescoço, recomendando-lhe para pôr creme.

- Ponha este creme nessa borbulha, - disse o Miguel dando-lhe uma bisnaga.

- “Fucidine”? A borbulha nota-se assim tanto? O meu pai é médico e receitou-me esta “Banha da Cobra” – e mostrou o boião

- Nota-se e não é de bom tom aparecer numa base com uma penca dessas, as miúdas irão reparar logo, e não são de pencas grandes que elas gostam. Esta veio da América.

- Da América?

- É receitada para os pilotos.

O jovem Jorge riu-se e guardou-a. Miguel também reparou que o pai já tinha alguns cabelos brancos, e isso fê-lo lembrar da resposta a uma carta que recebera em 1985, na altura em que tinha sido nomeado para um alto cargo no Estado, da irmã Dulcídia, dos tempos no Colégio de São Gonçalo em Amarante, que o vira na televisão e o reconhecera.

“O cabelo me começou a branquear logo que entrei na casa dos 20” (Jorge, 1985).

Contra todas as impossibilidades, Miguel saiu ileso debaixo da árvore, e só ele reparou que conseguira passar através do enorme tronco que caíra sobre si, sinal de que era apenas uma ilusão e não um parceiro no fluxo eterno, tal como todos da família, tal como todos no mundo. Afinal a realidade não impedia mudanças e paradoxos.

 - Milagre, milagre, - gritaram as vozes femininas, benzendo-se.

Nem o Miguel, nem o avô Mário, sabiam dos conceitos da “sobreposição” e do “entrelaçamento” que diziam que no Universo todas as coisas existiam em todos os tempos e lugares. Teria o viajante sido replicado pelo telemóvel, e o seu “espírito do cérebro” transferira-se para o aparelho na Igreja de Gestaçô, e permitira a passagem da membrana do tempo? Ouviu-se um toque, era um aviso duma mensagem que informava o cliente da chegada da encomenda na loja Worten do shopping Oeirasparque.

- Será mesmo meu sobrinho? – Questionou-se o Victor que assistira a toda a cena.

Alguém vindo do futuro era uma ideia que parecia impossível, mas a queda da árvore explicou o que o tio Victor vira, por isso a ideia tornava-se cada vez mais plausível. O dr. Mário de Miranda apareceu a correr e abraçou o neto. Miguel viu um carro puxado por bois cheio de canas com maçarocas de milho, dirigido por um homem novo envelhecido, que calçava tamancas pretas, e no seu encalço vinha uma resma de crianças, tudo meninas, descalças e deslavadas, colecionando feridas, os dedos pintados de nódoas negras e as plantas dos pés repletas de rasgões. Reparou que as mulheres tinham os olhos cheios de lágrimas. Levantou o chapéu e cumprimentou o patrão. A cena iria repetir-se vinte anos depois, numa das visitas à avó Maria pelo Natal, com o senhor Agostinho e a sua prole de filhas, também descalças, a passarem em frente aos netos da patroa, filhos do Jorge. Miguel sabia que a vida iria ser ainda para muitos, durante muito tempo, feita de miséria.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

06
Dez25

166 - O Bisneto do Padre Joaquim - Dia 3 - 20 de novembro de 1949 (domingo) - Parte da Mobília

Narciso Baeta

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Miguel não sabia que quando se debruçara sobre a tumba de Agostinho Clemente de Miranda, rompera a membrana que separava o seu tempo do tempo do avô, por isso sonhou com o Sol e a Lua na noite seguinte, sinal de que estava na roda do tempo, tendo caído desamparado no vazio. Pelo caminho viu o antepassado a atirar-se em desespero ao rio Douro, tendo no seu encalço uma turbe de miguelistas decididos a fazer-lhe a folha. Sentiu o cheiro a gordura, a suor, a fumo, a serra e a sangue. A sortida dos liberais a Vila Nova de Gaia não tinha corrido bem. Viu também o Clemente a pôr em fuga o francês Loison na Volta Grande, abaixo de Quintela. Riu-se, como num filme do Charlot, e esqueceu-se, arrumando as imagens nas memórias mais profundas. Para todos a simetria era o princípio ordenador da vida, com um alcance infinito, e que abrangia tudo. Mas agora o Universo revelara-se paradoxal, o aparecimento do senhor Miguel, um cidadão de 2023, em Amarante de 1949, denunciava uma assimetria. O tempo não tem princípio nem fim, o tempo está em nosso redor e em nós, o tempo é o nosso lar antes de nascermos e depois de morrermos, o tempo dá e o tempo tira, liga todas as coisas, a vida e a morte, a noite e a luz. Acreditar é muitas vezes um imperativo de sobrevivência, por isso temos de aceitar o que nos é oferecido. Estamos aqui apenas para ser memórias daqueles que amamos. Quando se é pai somos o fantasma do futuro dos nossos filhos. O pai tinha regressado à base, e nem se despedira, talvez por despeito, talvez por feitio, e este era o único comportamento que lhe conhecia.  A noite estrelada de luar que iluminava a biblioteca ganhou mais peso com a luz discreta, amarelada, do candeeiro a petróleo que o avô do Miguel trazia.

- Estás muito pensativo, é o teu pai?

- Sempre foi assim, não é novidade.

No seu mundo o pai tinha morrido, aqui estavam juntos. Acontecia a todos os viajantes, ter ansiedade para chegar a casa, de volta ao seu tempo. Todos naquela casa não passavam de uma consistência contranatura.

- Quero recordar-me de nós tal como estamos neste momento – disse Miguel dando a mão ao avô.

- Serás o meu neto durante o tempo que puderes.

Deus tinha criado as leis da Natureza, dizia sempre o bisavô paterno do Miguel ao seu filho Mário, um homem da ciência. Por isso um milagre não era mais do que uma transgressão dessas leis, ou seja, se Deus tinha por vezes necessidade de violar as suas próprias leis, significava que não era assim tão perfeito como o pintavam. Ou então os “milagres” não eram mais do que aberrações dos fracos. A presença do neto, palpável e inegável, só podia seguir as leis da Natureza, o tempo de sentido único não existia, e com isso abriam-se tantas possibilidades. O tio António estava vivo no passado, e nada os impedia de ir ter com ele. Só precisavam de saber como. A vinda do neto estava lentamente a tirar Mário de Miranda da cegueira da dor, e tudo graças a uma tecnologia que nunca iria conhecer, que facilitou o controle de partes do cérebro, onde abriram uma via direta através de acontecimentos cósmicos que se alinharam inesperadamente. Uma notificação do H3, o ritmo cardíaco, a temperatura ambiente, a pressão atmosférica, a humidade, fizeram o Miguel ter acesso a memórias genéticas incrustadas na carne, dum tempo nunca vivido, fazendo-o recuar no relógio do tempo, para a banda Theta.

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Nov25

165 - O Bisneto do Padre Joaquim - Dia 2 - 19 de novembro de 1949 (sábado) - A Castelã de Mormilheiro

Narciso Baeta

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Miguel e Fernando passaram por uma pequena casa, o vento norte uivava no telhado de pedra, iluminada por uma fogueira no centro da sala, cujo fumo saia pelas telhas, e ouviram o chorar de uma criança, seguido de um aviso:

- Se não te calas vem aí a Dona Loba e devora-te.

- Contavam que a filha da galega Dona Goda, irmã de D. Estevainha, Dona Uraca, do Fernão, do Lourenço e do Egas, rapazes que tinham o feitio aventureiro do pai, D. Mem de Gondar, que auxiliou o conde D. Henrique no alargamento do Condado Portucalense, tinha um apetite devorador, por isso comia um boi por dia, - explicou o tio do hóspede da Casa da Telheira.

À medida que se aproximavam da enorme torre, ouviram ao longe o bramir de animais.

- Os bois da Dona Loba, - disse o cicerone levantando um braço e apontando na direção do som.

De repente surgiu, no meio da escuridão, uma enorme ruína. Miguel olhou para a torre e viu, sentada num almadraque junto à porta, uma gigantesca mulher, que fiava sonolenta com uma pesada roca de prata. Assustou-se!

- Dona Loba?

O cenário mudou repentinamente, a ruína da casa transformara-se agora numa torre com dois pisos, o telemóvel indicava o ano 1250, e todos foram transportados para uma grande sala mobilada, com uma mesa enorme repleta de comida. Como a largura do seu tronco excedia a da porta, a senhora entrou de lado e fez um sinal para se sentarem, sentando-se também. Miguel reparou que ela tinha rugas profundas e vincadas, as mãos estavam manchadas de várias cores e a roupa que vestia era coçada e usada. A refeição parecia ir ter uma tonalidade afetiva. O jovem Fernando olhava com espanto para tudo aquilo e tirava apontamentos visuais, que registava em reflexões com pequenas letras negras numa folha branca. Por uma janela no meio da escada penetrava uma luz cinzenta.

- Fica para memória futura, alguém há de ler, - disse.

- Vou ser eu a encontra-las no escritório do meu pai após a morte dele. Tem lá centenas de documentos de várias gerações.

- Em que ano?

- 2022!

- 2022?? O Jorge vai viver até esse ano? E eu?

De repente instalou-se um silêncio, as janelas abriram-se com estrondo, levadas por um vento e por uma tempestade inesperada, brilhante, veloz e aterradora, como se fosse, não do domínio do ar, mas do interior obscuro da sala. Miguel viu a luz da parede piscar, como costumava acontecer inexplicavelmente de tempos a tempos, e ele dizia ser alguém a querer comunicar do Além. Tinha entrado de rompante no tempo da mulher, que dormia profundamente ao seu lado, abraçou-a com força, sentindo o seu corpo quente, viu a luz de presença que indicava que o aparelho anti melgas estava ligado, mas foi de novo envolto por uma noite espessa. Tentou encontrar o interruptor do candeeiro da mesa de cabeceira, abriu os olhos e viu que tudo estava calado na casa da Dona Loba, o vento e o pó. A senhora levantou-se com uma gentileza leve e um gesto ritmado, aproximou-se da janela e fechou-a.

- Não me posso constipar, - explicou aproximando-se do senhor, e continuou colando os seus lábios carnudos ao ouvido do visitante. – Livre-se de alterar a História! – Disse, zangada, ao Miguel.

Uma sombra vaga rodeou o convidado, ele controlou a ansiedade com um sorriso no rosto e uma calma no corpo, ao mesmo tempo que deu um golo numa água cheia de sabores da época. De uma maçã brilhante saiu uma pequena luzinha com a forma de um pirilampo, que caminhou com passos vagarosos pelo corredor vazio e apagado, parando junto de uma cortina de cor branca em fuga, marcada numa ponta com um borrão vermelho. Ouviu-se uma tosse surda, seguida de outro silêncio denso. Ao longe, junto de um cadeirão, havia uma estante de livros. Agora um terceiro silêncio cheio de gritos. Ao mesmo tempo ninguém conseguia desviar o olhar do nevoeiro e da chuva que caia do lado de fora das janelas. Miguel sonhou com palavras, imagens e cores de um tempo a preto e branco, onde um fantasma com a cara do pai, que emergiu súbita e gentilmente da leveza do ar, lhe sussurrava muitos “xs”, ao ouvido, frases que corriam, paravam, recuavam, avançavam, desapareciam e reapareciam. Viu uma luz, seguida de uma sombra. Foi distraído pelo barulho de homens que gritavam para algo. Espreitou pela janela e viu que uma carroça cheia de milho tinha ficado atulhada numa poça de lama com uma parelha de bois lá dentro. Alguém bateu à porta. Abriu-a, deu de caras com o jovem Fernando.

- Fiz-lhe um esboço da casa da Dona loba, para teres uma ideia quando formos lá. Está orientada para o Marão, assim como a nossa Casa da Telheira e a Casa de Palmazões ali ao lado, - e entregou ao sobrinho um papel cheio de rabiscos, que ele já conhecia, ao mesmo tempo que agarrava, com a outra mão, um penico cheio de urina, com um polegar mergulhado lá dentro.

A Casa da Telheira tinha feito parte da Quinta de Palmazões, cuja casa principal estava destinada aos donos e aquela aos rapazes solteiros, mas devido à guerra civil entre miguelistas e liberais dividira-se, assim como a família.

- Obrigado padrinho!

- Padrinho?

- Lembrei-me agora que irá ser meu padrinho, juntamente com a tia Milú.

- Tia Milú?

- É outra estória, é alguém que irão querer casá-la consigo!

O tio Fernando estava sintonizado para o momento:

- Dois pisos como sempre pensei!

- Meus caros convidados, como calculam o meu nome é Loba Mendes, e é impossível estarmos juntos, mas estamos, porque estou em todos os sítios ao mesmo tempo, e a realidade agora é esta.

- E o meu tio finalmente encontrou-a – interrompeu.

- O significado da minha vida não está presente no vosso mundo, mas na verdade nós estamos sempre entre uns e outros. No tempo deste senhor …

- …. Miguel ….

- …. Do senhor Miguel e no deste jovem …

- … Fernando ….

- … do Fernando, eu já não existo! No meu tempo são vocês que não existem. E, no entanto, estamos todos aqui juntos a conversar. Esta sala, para mim, está cheia de gente.

Os convidados tiveram a sensação de ouvir um silêncio cheio de vozes e riram-se.

- “Os meus mortos continuam a mudar dentro de mim. Continuam a inquirir-me. Ando à procura de um rosto em fuga, com uma beleza tão natural que parece sobrenatural”, Tolstói, - interrompeu o tio Fernando.

Foram rodeados por uma aura de luz fantástica, com cores e brilhos, sentiram forças e energias novas, que lhes deram uma sensação de superior serenidade. A senhora que serviu sopa ao Miguel tinha uns olhos azuis penetrantes, enquanto que a do Fernando tinha uns olhos pretos pequeninos. Repentinamente a noite espessa voltou, e ambos os visitantes estavam de novo no exterior junto às ruínas da Torre da Dona Loba. E desta vez o Miguel acordou, mas ainda não no seu tempo, mas com ele normalizado, expurgado de informações que não faziam parte do momento. Pelo caminho viu de raspão o tio paterno Mário a atirar-se da janela do hospital de Santa Maria naquele dia fatídico de 6 de outubro de 1967 às dez horas e trinta minutos, não para se suicidar, como iria ser contado, mas para sair devido a um ataque psicótico; sentiu o último suspiro do tio avô paterno Aflalo, no dia 13 de novembro de 1968, vinte e nove anos depois de ter perdido a sua mulher Felismina Sara da Providência Nogueira de 38 anos; ouviu o derradeiro lamento do tio-avô paterno António Augusto no dia 2 de fevereiro de 1969, e acordou. A Dona Loba apareceu-lhe a queixar-se que lhe tinham roubado o seu corpo da sepultura cristã.

- A minha pergunta foi publicada na revista, - gritou uma jovem mulher.

- Que nome é que usaste desta vez, Felisbina?

- “Glicínia Branca”!

Na secção de astrologia da revista “Modas e Bordados” de setembro de 1931 uma leitora perguntava quando iria casar, e a resposta dizia que “até aos 24 anos encontrará aquele que o céu lhe destina. Tem casamento indicado para os seus 29 anos, com noivo mais velho que a sua idade, possuidor de alguns bens de fortuna e do seu casamento conceberá cinco filhos que todos criará com felicidade”. Que Felisbina seria esta, a irmã da Arminda Maio Teixeira que se casaria com Aurélio Dinis Marta fundador da Loja das Meias? Ao levantar-se viu um pequeno papel manuscrito no chão, e reconheceu a letra do pai: “Nove horas e quinze minutos. Que hora tão improvável”.

22
Nov25

164 - O Bisneto do Padre Joaquim - Dia 2 - 19 de novembro de 1949 (sábado) - Na Biblioteca

Narciso Baeta

Jorge (marido Lurdinhas) Iate Marilym  Regata às

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“O pó voltará à terra, de onde veio, e o espírito voltará a Deus, que o concedeu”

Eclesiastes 12:7

 

O avô deu o braço ao hóspede e encaminhou-o para a biblioteca, repleta de livros de várias gerações.

- Não sou mais do que um homem iludido, - repetiu, olhando para o neto de 62 anos, filho do Jorge de 20.

Quando passou pelas escadas que davam acesso ao piso superior, Miguel viu, numa pequena prateleira, o Santo António que estava na casa dos pais.

- Não, é talvez um bom homem, bom demais para este mundo, - respondeu o Miguel, ao mesmo tempo que procurava uma foto no telemóvel.

Quando descobriu o santo, que Maria Adelaide de Menezes Sotto Mayor Montenegro encomendara a um marceneiro, após mandar abater um carvalho na sua Quinta de Palmazões, mostrou-o ao avô.

- O destino flui, o destino está nas mãos dos homens, - retorquiu Mário de Miranda olhando espantado para o aparelho. – Gostava que o tempo recuasse para que o rapaz que perdi para a doença se erga e volte para casa, para a quinta, para trabalhar, para ter filhos, para ter uma vida plena e longa. Até agora julgava que só caminhávamos numa direção, mas desde que apareceste deste-me tantas esperanças, - e deu um beijo ao neto.

- Não avô, o destino está nas mãos de alguns homens.

- Nas tuas!

- Eu sei o vosso destino, mas será que se altera se o contar?

- Uma informação a mais e tu poderás deixar de existir, e ambos sabemos que tenho pouco tempo. Quero aproveitá-lo o mais que puder, - desabafou o médico que erguera, a muito custo e com sacrifício para a família, a Misericórdia de Baião e o respetivo hospital.

Na entrada da biblioteca deu de caras com outro objeto familiar, pendurado numa parede, a espada curva, que mencionara ao tio Victor, e apontou para ela.

- A espada de Manuel Cardoso Brochado, Sargento-Mor de Milícias do regimento nº 4 da Vila de Guimarães, filho de João Cardoso Brochado da Fonseca e de Maria Josefa de Carvalho, nasceu a 03/02/1780 e faleceu no dia 27/11/1848, - respondeu de imediato o avô, e continuou. – Grande apoiante de D. Miguel. Sabias que a Maria Adelaide, a mulher dele, era sobrinha do general José Cardoso Menezes Sottomaior Montenegro?

- General, tal como o meu pai!

- O Jorge vai chegar a general??

Os sentimentos de um pelo outro seriam sempre mais reais do que quaisquer outros. Acontecesse o que acontecesse, ambos pensavam que tinham o destino traçado, até este momento. Não sabiam se podiam mudá-lo, mas seria que deveriam tentar?

- És um paradoxo, - disse o avô abraçando o neto. – Só irás nascer daqui a dezoito anos. Espelho-me em ti e vejo-me a mim mesmo, - e tocou ao de leve na lã que estava no tear. - Sabias que o Freud dava um papel importante à tecelagem, que considerava uma invenção das mulheres?

- Nunca ouvi falar disso. Mas se foi o Freud deve haver sexo à mistura.

Riram-se!

- Desenvolveu o conceito de “inveja do pénis”, onde a tecelagem imitava a cabeleira púbica que disfarçava a genitália.

- Parece que o filho único da sobrinha do general também só pensava em sexo! – Disse o Miguel.

- O António Cardoso Brochado foi um putéfio, deu cabo da fortuna e da casa no jogo e com mulheres. A esposa, Maria Emília Ribeiro de Vasconcelos, que era do Marco da Casa do Rego, deu-lhe 5 filhos, a Virgínia, o António, o Francisco, o Joaquim e o Rodrigo Cardoso Brochado, teu bisavô materno. O Francisco Joaquim não se casou, foi para o Brasil de onde regressou rico e refez a casa do pai, adquirindo quintas na zona, que dividiu pelos irmãos. Deixou em testamento dinheiro para se construir a torre da igreja de Padronelo.

- Avô, se não fosse o Quim não estávamos aqui a ter essa conversa!

Riram-se de novo! Em cima da mesa, que estava no centro, um livro chamou à atenção do visitante.

- Dona Loba?

- É uma das fantasias do Fernando, - respondeu o avô Mário, rindo-se.

- Lembro-me de ir uivar com ele para o exterior nas férias de Natal quando vínhamos aqui a Palmazões.

- Acredita em lobisomens? – Perguntou o Fernando acabado de entrar. - Por vezes a dona Loba responde!

- O tio levou-nos várias vezes à Torre da Dona Loba.

- Vamos visitá-la. O povo conta que muitas vezes saia de casa à noite e só regressava uns meses depois, porque ia para outro mundo paralelo ao nosso. Se tivermos histórias diferentes, podemos ter memórias diferentes. – Explicou o tio.

- Mas com o meu neto aqui já não sei o que é verdade e o que é fantasia.

- “Os humanos têm o dever de ressuscitar as gerações anteriores” – leu o jovem Fernando num livro que tinha aberto nas mãos. – Sabem quem escreveu isto?

- Nunca ouvi isso – respondeu o Miguel.

- Nem eu – reforçou o avô paterno.

- Nikolai Fiodorov, o “Sócrates de Moscovo”. O pai do “Cosmismo”, um projeto que uniu a partir do final do século dezanove, na Rússia, cientistas, místicos, revolucionários e engenheiros, que tinha como principal pressuposto que a vida humana não devia ficar limitada ao tempo e ao espaço.

- O teu sobrinho, meu neto, é o exemplo do triunfo do “Comismo” …

- “Cosmismo”, pai, “Cosmismo”, – e continuou. – Oiçam esta, Fiodorov também defendia a imortalidade humana e a ressuscitação de pessoas mortas.

- Ressuscitação de pessoas mortas? – Interrompeu, um pouco exaltado, o avô do Miguel.

O neto mostrou o texto que estava no telemóvel após pesquisa no Google sobre o tema, o Dr. Mário de Miranda leu com atenção, mas a um dado momento enganou-se a puxar o texto e os ícones apareceram no mostrador. Carregou de imediato aleatoriamente num, e a biblioteca mergulhou num intenso nevoeiro, e à frente dele e do neto estavam agora quatro crianças e um jovem adulto:

- Meu Deus, o meu António, - gritou o médico aproximando-se dele, abraçando-o e dando-lhe inúmeros beijos.

As imagens em 3D estavam estáticas, mas pareciam ser reais.

- Este aqui é o meu pai, - disse o Miguel aproximando-se do segundo da direita.

- O Fernando, o Jorge, o Victor e o António, meus queridos filhos.

- E o rapaz, quem é?

- É o Joaquim, o filho do Amador e da Dulce, estavam na escada quando chegaste.

Mas rapidamente mudou para o filho desaparecido.

- O meu António, o meu querido António, - e beijou-o de novo tão profundamente, tão dolorosamente.

Miguel agarrou no telemóvel que o avô tinha deixado cair e reparou que a data tinha mudado.

- 22 de agosto de 1932!

- 1932? Estamos em Penaventosa, Baião, o António tem 1 ano!

Como num passe de mágica, o nevoeiro desapareceu e estavam de novo na biblioteca.

- Dá-me o telemóvel, dá-me o telemóvel, - gritou, tirando o aparelho com violência das mãos do neto, carregando freneticamente nos ícones.

- Este “MB” serve para quê?

- Para pagamentos!

- Dá-te notas?

- Dinheiro eletrónico, não é físico.

- E este “Sapo Mail”?

- Correio eletrónico, as cartas estão a desaparecer no meu tempo.

- E este é o “Telefone”, deduzo?

- Está certo, não preciso de ir à Estação dos Correios de cada vez que quero telefonar ou receber um telefonema.

- Noutro dia atrasei-me e não falei com o teu pai à hora combinada.

- Qual é o símbolo para viajarmos no tempo?

- Não existe isso.

- Existe sim, foi quando carreguei nele que fomos para Penaventosa. Tu sabes qual é. Este?

E mostrou o do “H3”.

- Esse é de comida!

- Diz-me, diz-me, por favor, eu quero voltar a beijar o meu António.

- Mário o que é que se passa? – Perguntou Maria da Glória irrompendo pela biblioteca.

- O António, o regresso do António é uma possibilidade, - respondeu o Dr. Mário de Miranda agarrando a mulher pela cintura e fixando o seu olhar nos olhos dela.

- Meu Deus que loucura é esta? Ressuscitar o António? Este senhor está a fazer-nos mal, deves pô-lo na rua antes que seja tarde de mais – e saiu do espaço a resmungar e a esbracejar. – Estás a enlouquecer, meu velho.

- Avô e onde é que eu entro na “ressuscitação de pessoas mortas”?

- No “tempo e no espaço”, - explicou o tio Fernando, olhando para o hóspede através das lentes dos óculos.

- Resgatas o António no passado, é curado no teu futuro, e regressa ao nosso presente, - exclamou o avô com um sorriso que há muito não tinha.

- Como? Eu nem sei como é que vim aqui parar!

- Eu vou-te ajudar – exclamou o avô do Miguel pondo-lhe a mão no ombro esquerdo. – Tu transcendeste-te através da tecnologia, esse teu aparelho …

- … o telemóvel?

- … sim, o telemóvel, é um extra do teu corpo, dá-te possibilidades de conheceres o passado, o presente e até o futuro. A fotografia que nos tiraste …

- … a selfie?

- … a foto colocou-me no teu mundo, num futuro em que já não existo, mas que ressuscitei, e passei a existir. Tiveste de te desmaterializar para chegares até aqui.

- Desmaterializar-me? Tipo liofilizado?

- Liofili quê?

- Nada, isso ainda não existe, transformar-me em pó e depois reconstruir-me?

- Mais ou menos assim!

- Atravessaste a “Hierarquia dos Seres” do S. Tomás de Aquino, mas ao contrário, - exclamou o Fernando, rindo-se.

- “Hierarquia dos Seres”??? – Interrogaram-se, olhando para o engenheiro.

- Para chegares aqui deixaste o reino dos homens, recuaste para o reino animal, depois para o reino vegetal e por fim chegaste ao reino mineral, onde te transformaste, não em pó, mas sim em partículas, pois elas movimentam-se sempre com uma finalidade.

- As cinzas do António não se perderam, encontram-se dispersas na natureza, na cova.

Os derradeiros dias do António, deitado na cama, prostrado, a tossir, a sofrer, a mãe a segurar nos braços o rapaz doente, pequeno e assustado, desesperada, num murmúrio entre a oração e a razão, sentindo a febre do filho, dando-lhe a mão, o conforto que ele precisava antes da alma levar a sua vida, a pedir a devolução da saúde do filho, a recuperação do seu sorriso. Ouvia-lhe a respiração cada vez mais tensa, ofegante, ruidosa, alternando com espasmos. Mário de Miranda já desistira de falar com os céus, o homem de ciência já sabia qual era o destino do António, e foi a partir deste momento que começou a duvidar da existência de Deus, mas mesmo que Ele existisse, era o ser mais perverso de que alguma vez ouvira falar, por isso já lhe tinha pouco respeito. O quarto estava envolto num turbilhão de sentimentos. Nos olhos do António via-se medo e traição, e a única coisa que os pais podiam dizer-lhe é que era amado. Caiam-lhe lágrimas pesadas à medida que contava ao neto os derradeiros dias do tio, cachos salgados com a cadência de um choro grave que os olhos não conseguiam controlar, no meio da dor que o desfigurava. Foram muitas as vezes que aproximou um espelho da boca do rapaz, para ver se embaciava. Um minuto antes da paragem cardíaca, o cérebro do António foi inundado por ondas gama, que lhe permitiram ter acesso a todas as memórias, e tudo ficou claro, viu a vida inteira, por isso sorriu quando sentiu uma alegria intensa, acompanhada de uma ligação a todas as coisas. Foi libertado com uma cor magenta rosado, a tonalidade das almas jovens, uma imagem da realidade entrou na mente e o espelho não ficou húmido. Tudo parou. Partiu cansado e despedaçado. Nesse momento, desequilibrado em delírio inquieto, o pai tentou desesperado sentir-lhe o coração, abraçou-o, beijou-o, chamou-o, sentiu-se perdido, oprimido pelo peso do mundo. A baba espumosa, de tanta raiva, escorria-lhe pelos cantos da boca, estava perdido tateando na escuridão que a vida se tornara. O António ainda o ouviu: “Onde irás reencarnar meu querido filho?” Mário de Miranda era um leitor assíduo de Allan Kardec. Como homem da ciência sabia que muitas células do seu querido filho continuavam cheias de vida, embora o seu processo de desconstrução fosse agora irreversível. Morrera enquanto vivera, e iria continuar vivo depois de morrer. Os caminhos minuciosos da profissão, e o amor incondicional aos outros filhos, não lhe permitiram o quebranto, o filho António continuava presente, ouvia-lhe as palavras, o som dos passos, as gargalhadas. A 4/08/1930 fora batizado com urgência na Igreja de Campelo por estar em perigo de vida com coqueluche. Talvez a ausência de fé do Jorge tivesse tido aqui a sua origem, porque se houvesse bondade, ela nunca permitiria tanto sofrimento. O mundo é o que vemos e não o que de facto é, com um deus ausente entre os esquecidos. O Dr. Mário de Miranda não quis acordar os filhos, porque enquanto dormissem ainda tinham o irmão António. Maria da Glória acendeu duas velas junto ao crucifixo de prata que estava na mesa de cabeceira. Contemplou o filho, sereno, imóvel e pálido. Umas horas depois os fotões do filho tocaram-lhe na cara, e ela sentiu o seu cheiro.

- No ano seguinte apareceu o remédio que o salvaria. Tu tens de levar-me ao teu tio, - pediu, agarrando com força o braço esquerdo do neto.

O luto pelo filho, que o começou a matar lentamente, atenuara-se com a visita inesperada do descendente.

- Imagino-o a correr para os meus braços, a abraçá-lo, a beijá-lo, a não o largar mais.

Que força seria necessária para abraçar alguém que já morrera uma vez?

Um curto silêncio abateu-se sobre todos, até que o tio Fernando resolveu mudar de assunto, o pai estava muito exaltado, e isso podia fazer-lhe mal. Não sabia era que o processo metabólico do Dr. Mário de Miranda já o encaminhava para o fim.

- Dizem que quem passa pela casa da Dona Loba nos dias ventosos de lua nova, ouve os seus soluços a saírem do que resta da casa.

Seria aquele local, cujas ruínas o tio Fernando gostava tanto de mostrar à família, alturas em que o Leão, um rafeiro que passava a vida acorrentado, era solto pelo pai, quando esta se reunia nas férias de Natal em Amarante na quinta da avó Maria, um local com um mecanismo de transferência quântica?

- Vamos até lá – convidou o tio Fernando.

A ruína da torre residencial de granito de grandes dimensões, implantada numa encosta cuja fachada principal era rasgada por um arco apareceu do meio do mato.

- Está igualzinha há do meu tempo, - exclamou o Miguel.

Mas desta vez quem os acompanhou não foi o Leão, mas sim a cadela, a Neve.

- Viveu aqui na época medieval a Dona Loba Mendes, que era filha de Mem de Gondar, - disse o tio Fernando, e continuou. – Diziam que era uma mulher rica, avarenta e malvada, cujos cães ladravam sempre aos pobres que se aproximavam do solar.

- Então podemos estar descansados, iremos ser bem recebidos, - interrompeu o hóspede, rindo-se.

- Mas temos de vir num dia ventoso de lua nova! – Retorquiu o jovem Fernando, deixando também sair um sorriso trocista. – Tinha dois pisos. Estás a ver aqueles cachorros em pedra no interior?

Miguel entrou no espaço e olhou:

- Sim!

- Serviam para suportarem o pavimento do piso superior.

- A Dona Loba não recebia ninguém?

- Dizem que só o Frei Gonçalo lá entrou na altura em que precisava de pedras do local para construir a ponte. Foi pedir-lhe uns bois emprestados.

- E ela emprestou?

- Sim, uns animais enormes que estavam no pasto em estado selvagem.

- A velha pensou que o Frei fosse para obras quando os fosse buscar, - retorquiu Miguel, rindo-se de novo.

- Mas aconteceu o contrário, os animais foram muito mansos para o padre.

O tio ainda disse o que sempre contara, que a largura das paredes era tão grande que uma carroça com os animais podia lá andar.

16
Nov25

163 - O Bisneto do Padre Joaquim - Dia 2 - 19 de novembro de 1949 (sábado) - "No pequeno-almoço"

Narciso Baeta

Família Brochado de Miranda -.jpg

9

- O Matias cada vez está pior, - queixou-se o avô.

- Mas o que é que lhe aconteceu pai? – Perguntou o Victor Hugo. – Adorava essa garagem de Amarante.

- Mudou de mecânico, e este só fez asneiras.

- E o Joaquim, que dizem ser mecânico da aviação, não será mais sério? – Interveio o Fernando.

- Na dúvida é bom não mandar fazer consertos em Amarante, sem que o proprietário esteja presente, ou pessoa da sua confiança, a fiscalizar a obra. – Respondeu o dr. Mário de Miranda, e continuou. - Na segunda-feira vou ao Porto remediar as asneiras feitas em Amarante.

- Não te esqueças de levar o documento de identificação, - advertiu a mulher Maria da Glória.

Os documentos de identificação passaram a ser obrigatórios a partir de 1926.

- Está aqui – disse o avô do Miguel mostrando um livrinho.

- Posso ver – pediu o neto.

Era um livrinho de seis páginas de capa dura, forrado a pano vermelho vivo. O hóspede abriu o documento e reparou na foto, tipo passe, o senhor estava com um ar composto, sinal de que se tinha preparado, o olhar era sério e compenetrado, sobrancelhas cuidadas, em formato de acento circunflexo. Escolhera uma camisa branca com gravata preta e um blaiser escuro.

- Também deves ter um documento de identificação? – Perguntou o avô.

- Sim tenho a aplicação “Gov.pt”!

- Aplicação “Gov.pt”?

- No aparelho, - mostrou e ativou a app, mostrando de seguida o Cartão de Cidadão.

O Dr. Mário de Miranda olhou demoradamente para o écran do telemóvel e de seguida devolveu-o ao neto.

- Pai ouvi dizer que a filha alemã do tio Marco Aurélio vem passar aqui uns dias? – Inquiriu o Mário.

- Passar umas férias, concluiu o curso dos liceus e vai ingressar numa universidade alemã.

- Mas tu não falas alemão Mário, - provocou o Jorge.

Riram-se!

- E a mulher do Marco deixa? – Questionou o Fernando.

- Não sei, brava como ela é. É preciso diplomacia. A pequena não tem culpa de vir a este mundo. Enfim, quem as faz é justo que as pague. E esta extravagância é um aviso para vocês não caírem no mesmo erro, - e olhou diretamente para o Jorge.

Na vida há muitas perguntas e falta de tempo para dar respostas. Quem principiara a conversa no pequeno-almoço fora o anfitrião, depois de todos se terem servido de leite, colhido uma hora antes, e barrado o pão de Padronelo com manteiga rançosa.

- Muitos japoneses vivem segundo um livro chinês com 5000 anos, o “I-Ching”. Fazem-lhe perguntas como se estivesse vivo. E está vivo. Dizem que tem um objetivo porque não conseguimos ver o caminho em frente sozinhos. Ele mostra-nos o que nos espera. – Exclamou o Fernando mudando o assunto.

E olhou para o senhor que se dizia ser seu sobrinho.

- O nosso livro está à mesa, - disse o Jorge com um ar jocoso.

Miguel olhou para o pai e sorriu. A situação era inimaginável, olhava para a família de quem conhecia todo o futuro, ele era uma espécie de “I-Ching”, sabia o que lhes esperava. Conseguimos viver no nosso mundo, se o tolerarmos. Sabia que o tio Mário não o iria tolerar. Será que se lhe contasse tudo seria diferente?

- Caro senhor Miguel, - chamou o avô Mário. – Dê uma olhadela nestas anotações feitas pelo meu pai.

O profícuo padre Joaquim Ribeiro Alves de Miranda, senhor da Casa de Quintela, que nascera no dia 31 de janeiro de 1830, e educara, com a ajuda da sua “santa irmã”, Eufrásia Clemente de Miranda, todos os filhos que tivera com três mulheres diferentes: Christina Augusta, Manuel Augusto, Augusto Adelino, António Augusto, Leonor Augusta, Mário, Dulce Augusta e Albertina Augusta. O bispo do Porto acabou por chamá-lo para lhe pedir para ser “mais discreto”. No dia 17 de setembro de 1912 foi para um jazigo perpétuo no cemitério de Gestaçô.”

Durante largos minutos a mesa permaneceu em silêncio observando o hóspede a ler o papel, ao mesmo tempo que comiam, o que ele fez várias vezes. Contou pelos dedos e disse:

- Falta aqui um avô, o tio-avô Aflalo! – Exclamou o hospede.

Pararam de comer e olharam para o desconhecido.

- Não sou mais do que um homem iludido, - desabafou o Dr. Mário de Miranda quebrando o silêncio.

- Iludido? Tem uma família unida, uns filhos responsáveis, criou a Misericórdia de Baião, onde esteve 15 anos, construiu o Hospital, contra tudo e contra todos. “Só prejuízos e más vontades”, escreveu na carta que enviou ao meu pai em 3 de dezembro de 1947. Não, é um bom homem, talvez bom demais para este mundo.

O avô tinha várias queixas da vida. Quando era miúdo só queria um pai, era a única ambição, imaginava-o um grande homem, a fazer coisas tão importantes que não teria tempo para ele. Mas no fim só fizera muitos filhos, de mulheres diferentes, e quando chegara a sua vez deu-lhe um nome a correr, Mário de Miranda, ao contrário dos primeiros, só tivera direito a dois, um nome próprio e um apelido. A única maneira de encarar a verdade da vida é afastarmo-nos dela, para podermos ver as consequências de todos os pensamentos, de todas as ações. Mas mesmo assim estamos limitados ao tempo e ao espaço, incapazes de definir o nosso destino. Ele só está nas mãos de alguns homens, por isso são incapazes de perceber as diferenças entre tempos e espaços diversos.

 

 

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